A briga foi feia

Teve dedo na cara. Teve voz alterada. Teve tudo o que tem em uma discussão. E, não. Eu não estou falando da música. Antes fosse. 

Discussão durante cobertura da chuva, Franco da Rocha; morador ofendeu equipe da Record

Discussão durante cobertura da chuva, Franco da Rocha; morador ofendeu equipe da Record

Arquivo Pessoal

Eu juro que tentei ignorar. Juro que tentei me fazer de surdo. Mas não deu. Eu não consegui. Ali, prestes a entrar no ar, e ouvindo todas aquelas besteiras, meu sangue subiu. Não sei se foi falta de inteligência emocional. Só sei que nem eu nem meus colegas merecíamos ser desrespeitados daquele jeito, sem nenhum motivo.

É a primeira vez que vejo alguém atacar jornalistas em meio à cobertura de uma tragédia. Franco da Rocha, na grande São Paulo, tem sido palco do caos provocado pela chuva do fim de semana. São mais de dez mortos, pessoas feridas e gente desaparecida em meio aos escombros.

Repórteres durante entrevista coletiva sobre as buscas em meio aos escombros

Repórteres durante entrevista coletiva sobre as buscas em meio aos escombros

Júlio Arenega

Estamos desde o começo acompanhando tudo, perguntando, questionando, cobrando. Desde segunda-feira, quando fui pra lá de madrugada, estamos atentos ao trabalho dos bombeiros e da Defesa Civil, informando e prestando serviço.

Pra conseguir mostrar tudo do jeito que acontece, a gente se espreme, se arrisca. A gente sobe morro, se aperta em cima de uma laje, reveza espaço pra conseguir trabalhar. Nem de longe a nossa maratona é maior do que a de quem está concentrado nas buscas. Mas não deixa de ser um trabalho, igualmente, exaustivo, cercado de tarefas e desafios. Cada um na sua função, no fim das contas, coloca o pé no barro, literalmente, pra entregar o melhor.

Área em que um deslizamento de terra provocou a morte de mais de dez pessoas

Área em que um deslizamento de terra provocou a morte de mais de dez pessoas

Lucas Carvalho, da Record TV

Ali, em cima daquele barranco úmido, meus colegas e eu estávamos posicionados pro ao vivo. Era o único lugar possível naquele momento. De repente, surge um homem alertando: "vocês estão num lugar arriscado. Esse morro está cedendo". Até aí, tudo bem. Parecia um rapaz bem intencionado, preocupado. Mas, na verdade, não. 

Do nada, ele começou a dizer que não estávamos nos importando com a cidade e, sim, em mostrar a tragédia. Na opinião dele, não deveríamos estar ali. Como se a gente escolhesse a notícia que quer dar. Entre um resmungo e outro, ouvi ele dizendo: "são carniceiros". E falava isso repetidas vezes. Aquilo martelava na minha cabeça e doía nos meus ouvidos.

Mesmo faltando, sei lá, menos de cinco minutos pra entrar no ar, ao vivo, não me contive. Perguntei o motivo do ataque, se o que ele queria, inicialmente, era só nos alertar dos perigos que a gente estava correndo. Se apresentando como bombeiro, começou um intenso bate-boca.

A briga foi feia. Teve dedo na cara. Teve voz alterada. Teve tudo o que tem em uma discussão. E, não. Eu não estou falando da música. Antes fosse. Me vi envolvido num debate em defesa à minha profissão.

"Meu irmão, eu não sei o por quê você veio desrespeitar o nosso trabalho, por que você está xingando a gente?", questionei. "Xingando, não", rebateu. "Carniceiro, não. Aqui é tudo jornalista formado e nós estamos trabalhando", argumentei. A discussão começou a ficar acalorada. O homem gritava que havia ajudado nas buscas e que ele, sim, conhecia a região. "Por que você não vai lá na lama ajudar?", provocou.

Tentei explicar que é de jornalismo que eu entendo. Ele me mandou calar a boca. Não pude engolir aquilo. "Cala a boca, não. Você me respeita", disse, já com a voz alterada. Naturalmente, costumo falar gesticulando. Quando fico nervoso, então... Fui chamado de "merda" e desafiado a sair na porrada com o cara.

Não saí na mão com ele, óbvio. Seria incapaz. Mas não economizei palavras pra defender o meu trabalho e o do meus colegas. Exigi respeito. Saio de casa, todo dia, pra trabalhar. Não pra brincar. Ergui a voz, sim. Se estava certo ou errado, decidi que não iria me calar. Alguém precisa cessar essa onda de ataques a jornalistas. Como se não bastasse a tragédia em si, gente desrespeitosa aproveita qualquer cenário pra armar um circo. Eu não sou palhaço. Sou jornalista, repórter e, acima de tudo, orgulhoso do que faço. Acredito na minha função. Sei das minhas responsabilidades.

Entrada, ao vivo, no Balanço Geral Manhã com Eleandro Passaia

Entrada, ao vivo, no Balanço Geral Manhã com Eleandro Passaia

Reprodução/Record TV

Por fim, ele se afastou e nós conseguimos voltar ao trabalho. Trabalho difícil, o de contar mortos. O de revelar um cenário desastroso pra quem vive naquela região. Eu nunca vou ser capaz de aceitar esse tipo de comportamento. Sobretudo, porque, hoje em dia, pessoas discordam da notícia, não de uma opinião. Discordam de fatos. Discordam da realidade. Geralmente, quem não tem o que argumentar.

Esse episódio me deixou bem triste. Mas prefiro me lembrar de pessoas como as que oferecem o que tem de melhor: solidariedade. Nesse mesmo dia, horas antes, um senhor, com um saco de pães nas mãos, parou perto da gente e perguntou: "tem alguém trazendo café e comida pra vocês? Querem?". Agradecemos, mas não aceitamos, embora a vontade fosse até grande. Ele sorriu, baixou a cabeça e seguiu o caminho. Não sei o nome dele, mas sei o que ele trazia, além dos pães: trazia amor, carinho e respeito. É alguém anônimo, que transborda aquilo que o coração está cheio. Ele e o outro rapaz são iguais, mas diferentes no que carregam dentro de si.

Importante saber!

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