A ferro e fogo não dá

Com arrogância e prepotência – e, talvez, uma pequena dose de sorte – qualquer um pode chegar longe. Agora, com humildade e respeito, a gente chega onde quiser. 

Repórteres posicionados ao mesmo tempo para entradas ao vivo

Repórteres posicionados ao mesmo tempo para entradas ao vivo

Zé Paulo

Quase sempre alguém me pergunta se existe inimizade entre nós e a concorrência. E a verdade é que não. Nem tudo é a ferro e fogo. Longe da disputa por audiência, que é algo, absolutamente, normal em TV, nós, enquanto repórteres, estamos, apenas, em busca da melhor cobertura. E isso não significa fazê-la sem contar com a ajuda de outros colegas.

É claro que cada profissional é de um jeito. Tem gente que não se mistura, mesmo, e prefere trabalhar sozinho. E tudo bem se a pessoa opta por ser assim. Não me cabe, aqui, julgar o jeito de ninguém. Mas, em geral, rola muita parceria entre as equipes de reportagem na rua. Alguns assuntos, todos os veículos vão noticiar. E aquilo que não é exclusivo pode, sim, ser compartilhado.

Em operações policiais acontece muito essa troca. Às vezes, um repórter tem uma informação a mais, que complementa o que outro já tinha e, assim, vamos construindo pontes pra chegar ao objetivo final que é o de informar o telespectador da melhor maneira possível. Eu, por exemplo, já pedi pra entrevistado aguardar outro colega que estava ao vivo e precisava gravar logo em seguida. O mesmo já aconteceu comigo. Às vezes, a gente está num outro ponto, fazendo alguma outra coisa, e um repórter da concorrente dá aquele toque do tipo: "oh, fulano de tal aqui vai falar".

Repórteres Anthony Wells, Lucas Carvalho e Igor Calian: "Estamos todos no mesmo barco. Só os microfones são diferentes"

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Zé Paulo

Não sendo exclusivo, essa parceria é muito saudável. Afinal, todos nós estamos no mesmo barco. Só os microfones são diferentes. E como profissionais, nos cabe correr pelo nosso, sim. Buscar o melhor ângulo, a melhor imagem, a informação mais completa, o detalhe que ninguém viu... Isso não quer dizer que precisamos ser egoístas ou que tenhamos comportamentos que fujam da ética.

Concorrência deve ser estímulo. Não uma guerra. Deve provocar, desafiar, acentuar nossas diferenças, expor nossos pontos fortes ou fracos e, assim, nos mobilizar para o nosso próprio investimento. Para que possamos nos superar todos os dias. Enquanto operários da notícia – porque é isso que somos – penso que o melhor é manter a cordialidade e o respeito na rua.

Gosto desse bom relacionamento. Gosto quando temos tempo de transformar nossos encontros em festa. Se por um lado, às vezes, mal conseguimos dar "bom dia" em meio à correria, por outro, quando estamos juntos, tomando aquele chá de cadeira na porta de uma delegacia, aproveitamos pra dar risada, pra compartilhar experiências, pra falar besteira, pra amenizar o estresse do dia-a-dia. A gente sempre acha uma brecha pra tomar aquele café improvisado (o meu, com açúcar, por favor), pra tirar uma foto, pra registrar os perrengues.

Repórteres, cinegrafistas, auxiliares e fotógrafos reunidos

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Arquivo Pessoal

Eu, sinceramente, prefiro trabalhar nesse clima. Gosto de ser útil, quando posso, e de ter essa reciprocidade, que vem naturalmente, quando a coisa aperta pro meu lado. Não se faz jornalismo sozinho. Não se alcança bons resultados vivendo isolado. Não se constroem boas histórias sem diálogo, sem compreensão, sem troca de ideias. Com arrogância e prepotência – e, talvez, com uma pequena dose de sorte – qualquer um pode chegar longe. Agora, com humildade e respeito, a gente chega onde quiser.

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