Mais uma vez, não foi por acaso

Os ladrões pegaram nossos celulares à força. Quando um deles colocou a mão no meu bolso, instintivamente tentei impedir. O comparsa me ameaçou e me mostrou a arma na cintura. Não tive o que fazer.

Imagem ilustrativa

Fazia, exatamente, uma semana que eu estava em São Paulo. Eu ainda era repórter da Record, em Bauru, no interior paulista, e tinha vindo passar uma temporada na capital. Ter essa experiência sempre foi um sonho e tudo aconteceu tão de repente que, confesso, ainda estava meio deslumbrado.

Construção abandonada na zona leste de São Paulo

Construção abandonada na zona leste de São Paulo

Reprodução/Record TV

Naquele dia, minha equipe e eu estávamos pautados para uma reportagem que mostraria os transtornos causados por uma obra abandonada na zona leste de São Paulo. Era uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) inacabada, que já havia custado milhões de reais, e estava servindo, apenas, para o acúmulo de lixo e como abrigo para bichos e insetos.

Vagner Serafim e Claudemir Rincon: estávamos juntos durante a reportagem

Vagner Serafim e Claudemir Rincon: estávamos juntos durante a reportagem

Arquivo Pessoal

Comigo, estavam o repórter cinematográfico Claudemir Rincon e o auxiliar Vagner Serafim. Chegamos à marcação por volta de 11 horas da manhã. Tínhamos um entrevistado que seria o porta-voz da comunidade. Ele nos levou até o prédio abandonado para que pudéssemos fazer as imagens. Acreditávamos – tanto o morador quanto nós, da equipe – que aquela reportagem seria importante pra ajudar a cobrar uma resposta do Poder Público.

Depois de gravar com o denunciante, eu disse pra ele que continuaríamos ali, por mais alguns instantes, e que ele poderia voltar pra casa, se tivesse algum compromisso. Afinal, eu ainda tinha que terminar de alinhar meu texto com o editor, pensar numa passagem – que é a parte em que o repórter aparece na matéria – e o Rincon, detalhista como é, ainda precisava finalizar as imagens dele. Não fazia sentido "segurar" o morador ali com a gente.

Se arrependimento matasse, eu teria caído duro, ali mesmo. Eu não imaginava, mas estávamos sendo observados o tempo todo. Eu já estava pronto pra gravar, quando fui ao carro pra pegar uma água. De longe, vi o auxiliar Vagner Serafim conversando com dois rapazes. Imaginei que seriam moradores, indignados, ou curiosos, querendo saber sobre a reportagem que estávamos gravando.

Ledo engano. Aqueles dois jovens eram criminosos prestes a nos assaltar. Quando me aproximei, com o Rincon, eles anunciaram o roubo. "Não queremos carro nem equipamento. A gente só quer os celulares", disse um deles. Eu custava a acreditar naquilo. Na minha cabeça, só me vinha a imagem da minha família, especialmente, da minha mãe, que todos os dias madrugava pra me deixar uma mensagem de bom dia e desejar que Deus me abençoasse.

Tentávamos, ali, negociar com os assaltantes. Tentávamos argumentar, dizendo que estávamos no bairro na intenção de ajudar, denunciando o descaso do Poder Público. Eu dizia: "Vamos conversar, vamos conversar". De nada adiantou. Os ladrões pegaram nossos celulares à força. Quando um deles colocou a mão no meu bolso, instintivamente tentei impedir. O comparsa me ameaçou e me mostrou a arma na cintura. Não tive o que fazer.

Os dois fugiram, correndo. E, nós, ficamos parados, sem nem ter o que dizer. A única coisa que eu pensava era em voltar pro interior. Eu nunca tinha sido assaltado na vida. E, mesmo, noticiando esse tipo de coisa todos os dias, a gente nunca espera ser vítima. A gente pensa que sabe o desespero que é. Mas, não. Só passando por esse sufoco pra ter noção do quanto somos frágeis.

Àquela altura, eu não tinha condição nenhuma de continuar trabalhando. Eu dizia aos meus colegas que estava grato pela oportunidade, mas que meu desejo era voltar à minha vida. Eles, igualmente assustados, tentavam me acalmar. "Calma, isso não acontece todos os dias. Tenho anos de Record e essa foi a primeira vez que fui assaltado. Não vai desistir do seu sonho", disse o Rincon.

Depois de avisar à redação, que mandou a gente voltar pra TV o quanto antes, ainda tentamos pedir ajuda aos moradores do bairro. Tínhamos a esperança de recuperar nossos aparelhos. Eu, particularmente, só pensava em como avisar os meus pais sobre tudo aquilo. Alguns detalhes me fogem à cabeça. Mas, lembro que um motorista da Record me levou até o shopping para que eu pudesse comprar um celular novo.

Foi ele, também, quem me emprestou o telefone dele para que eu pudesse ligar pra minha mãe. "Oi, mãe. Como está? Olha, eu tô bem, mas..." Nem precisei completar a frase pra ela saber que tinha acontecido algo. Contei, tentando acalmá-la, dizendo que já estava tudo bem e que ela não precisava se preocupar.

Embora a Record tenha me dado a opção de não ir trabalhar no outro dia e até ter me oferecido atendimento psicológico, decidi continuar encarando meu desafio, que era dar o melhor de mim para que eu pudesse alcançar a meta de ficar, definitivamente, em São Paulo. Os dias seguintes não foram fáceis. Eu tinha a sensação de que iria acontecer de novo. E, de novo. E, de novo.

Mas, me apeguei à fé que tenho em Deus e ao entendimento de que passei por uma prova de fogo, cujo resultado tinha sido um enorme livramento. Minha equipe e eu saímos ilesos. Não fomos agredidos, feridos, baleados. Estávamos vivos. E, eu, tinha sonhos pra realizar. Metas. Desejos. Anseios. Depois de todo aquele perrengue, finalmente, fui contratado para uma vaga fixa na capital. Mais uma vez, fui abençoado.

E, mais uma vez, não foi por acaso.

Certamente, tem a ver com as mãos entrelaçadas da minha mãezinha, que distante 500 km, nunca deixou de rezar por mim um dia sequer. Tem a ver com essas mesmas mãos que, antes mesmo das 6h da manhã, me escrevem, diariamente, desejando bom dia e proteção divina. Tem a ver com o essencial e com o que me emociona de forma sobrenatural. Tem a ver com fé. Fé que não costuma falhar.

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