INSS

Mas será o Benedito?

Guardo na memória grandes coberturas, mas, também, histórias de pessoas simples, que foram, igualmente, importantes. Uma delas é a do seu Benedito. 

 

Jornalismo que não serve ao público, não serve pra nada. Nosso trabalho só faz sentido quando, por meio dele, vamos mudando o mundo. A começar pelo nosso mundo. O mundo que nos cerca. Que está logo ali. Sempre que me perguntam qual a reportagem que mais me marcou, eu costumo dizer que toda matéria pode ser impactante. Guardo na memória grandes coberturas, mas, também, histórias de pessoas simples, que foram, igualmente, importantes.

Mesmo sem poder trabalhar, seu Benedito teve benefício negado quatro vezes

Mesmo sem poder trabalhar, seu Benedito teve benefício negado quatro vezes

Reprodução/Record TV Paulista

Uma delas é a do seu Benedito. Quatro anos atrás, eu estive na casa dele, em Bauru, no interior de São Paulo. Mesmo sem ter condições físicas pra trabalhar, o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) insistia em negar todos os pedidos de auxílio-doença.

Quando o cinegrafista Marcos Jeziel e eu chegamos àquela casa simples, encontramos o aposentado deitado numa cama, ao lado de um cilindro de oxigênio. Ele já não trabalhava há dois anos em decorrência de uma série de doenças. Os problemas começaram com o agravamento do diabetes, seguido por um AVC (Acidente Vascular Cerebral), que paralisou o lado direito do corpo, dois infartos, uma pneumonia e embolia pulmonar.

Era difícil acreditar em como aquele homem ainda poderia estar vivo. Mais inacreditável, ainda, era o Governo negar o auxílio com aquele extenso diagnóstico. A esposa, Jaqueline, era operadora de caixa num supermercado. Diante do quadro de saúde do marido, precisou abandonar o serviço pra se dedicar, exclusivamente, a ele. O problema é que a conta não fechava: como ela iria cuidar do esposo sem ter nenhum tostão no bolso?

Jaqueline deixou o emprego pra cuidar do marido

Jaqueline deixou o emprego pra cuidar do marido

Reprodução/Record TV Paulista

Aos prantos, ela me contava detalhes da vida que vinha levando. “O Benedito não consegue pegar um saco de arroz. Como uma pessoa dessa pode ser capaz de trabalhar?”, questionava, olhando para os quatro pedidos negados, que carregava em suas mãos.

Os dois viviam de favor numa casa com quase nenhuma estrutura. Faltava água. Naquele momento, a dispensa estava vazia. Apenas um pouco de feijão e um pote com arroz que, certamente, terminaria naquele dia. Em cima da geladeira, havia um pacote de pão de forma que uma vizinha havia doado naquela manhã. Dentro da geladeira, havia meia dúzia de coisas. Uma situação dramática.

Jaqueline se via de mãos atadas. Não tinha quem cuidasse do marido e, por isso, foi obrigada a abrir mão do trabalho. Costurar seria uma alternativa pra garantir o básico sem sair de casa, mas ela também não tinha as máquinas pra fazer isso. Nossa missão era documentar tudo isso. E, óbvio, além de cobrar uma resposta dos responsáveis, usar a força da televisão pra tentar socorrer aquela família.

Veja a reportagem que fizemos para o Balanço Geral Interior, de Bauru, e continue lendo o texto pra saber o final dessa história.

Mais de seis minutos foram destinados à reportagem. Em televisão, um minuto e meio já é um tempo precioso. Para aquela história, nossos editores entenderam que seria importante dedicar uma atenção especial. Assim que a matéria foi pro ar, o apresentador do Balanço Geral Interior, Rodrigo Moterani, nem precisou fazer o apelo para que os telefones começassem a tocar.

Era tanta gente querendo ajudar, que a repercussão impressionou até mesmo os nossos produtores, que já não davam mais conta de atender às ligações e continuar o trabalho normal, de pauta e apuração. Inúmeras pessoas se comoveram com a história e queriam o contato do casal pra que pudesse ajudar de alguma forma.

Abraço de gratidão após família ser ajudada por reportagem

Abraço de gratidão após família ser ajudada por reportagem

Reprodução/Record TV Paulista

Uma semana depois voltamos à casa do Seu Benedito pra mostrar o resultado. Ali, mesmo, no portão, fui recebido com um abraço caloroso da esposa, Jaqueline. Ela até parecia outra pessoa. Estava mais sorridente, grata, feliz. Também, pudera. Em poucos dias, ela ganhou um carro usado pra ajudar no transporte do marido, quatro máquinas de costura, pra começar a trabalhar em casa, e uma dispensa repleta de alimentos. Era um outro cenário.

A questão com o INSS continuou emperrada. Recebemos uma daquelas notas prontas que falam, falam, falam e, por fim, não dizem nada. Em contrapartida, a solidariedade das pessoas ajudou a amenizar o sofrimento daquela família. Eu, apenas, fui o porta-voz daquela história, mas me sentia tão realizado, que, por dentro, eu não me aguentava de felicidade. É aquela sensação gostosa de ter cumprido um dever. Talvez, o mais nobre dos deveres que a minha profissão me permite cumprir. Por fim, guardei à sete chaves a frase da minha querida Tânia Guerra, editora daquela reportagem, que, emocionada, me olhou nos olhos e disse: “Meu filho, mostramos a que viemos”.

Sim, Tânia. Você tem razão. Se não for pra servir, pra quê a gente serve?

Assista à reportagem que fizemos mostrando a solidariedade das pessoas.

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