O caos que fez São Paulo travar

O temporal começou meio que de repente. E, rapidamente, o volume da água foi subindo pelos quatro cantos da maior metrópole do País. Pouquíssimas coberturas me deixaram tão exausto como aquela. 

Foram horas, ao vivo, em meio ao caos

Foram horas, ao vivo, em meio ao caos

Reprodução/Record TV

Naquele dia, a cidade que não para, travou, repentinamente. Voltar pra casa, depois de uma madrugada inteira de trabalho, ou sair cedo pra chegar ao serviço havia se tornado uma questão de sorte. Mais do que isso, seria se arriscar demais em meio ao caos que a chuva trouxe pra São Paulo.

Difícil esquecer o dia dez de fevereiro do ano passado. O temporal começou meio que de repente. E, rapidamente, o volume da água foi subindo pelos quatro cantos da maior metrópole do País.

Alagamentos deixaram ruas intransitáveis, em São Paulo

Alagamentos deixaram ruas intransitáveis, em São Paulo

ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Os Rios Pinheiros e Tietê transbordaram e invadiram as marginais. O trânsito parou. Os trilhos do trem e do metrô ficaram debaixo d’água. Foi uma manhã inteira de enchentes, alagamentos, quedas de árvores, desmoronamentos e muita destruição. A gente não sabia, mas aquela seria considerada a maior chuva para um mês de fevereiro em 37 anos.

O espelho dos jornais daquela segunda-feira caótica – espelho é o script do programa, com todo o conteúdo planejado pra ser exibido – havia desmoronado também. Nada do que tinha sido pensado pelos editores-chefes foi pro ar. A cobertura se voltou, rapidamente, aos transtornos causados pela chuva. Nós, repórteres, ficamos espalhados pela cidade mostrando, minuto a minuto, tudo o que estava acontecendo.

Com Marcelo Pólen, operador de sistemas, e Ronaldo Gouveia, repórter cinematográfico

Com Marcelo Pólen, operador de sistemas, e Ronaldo Gouveia, repórter cinematográfico

Arquivo Pessoal

Não demorou muito pro meu sapato virar um aquário. Eu estava com a meia toda encharcada. Coloquei a capa por cima do paletó. Não foi o suficiente. Comigo, estavam o repórter cinematrográfico Ronaldo Gouveia e o operador de sistemas Marcelo Pólen. Os dois estavam, igualmente, ensopados e, ainda por cima, carregavam a câmera e o mochilink.

A cena era impressionante. Carros ficaram submersos e alguns motoristas não tiveram como escapar da força da água. Ficaram ilhados. Trancados. Alguns trechos das marginais ficaram completamente alagadas e o único veículo que circulava era o bote dos bombeiros. Eles faziam o salvamento, retirando as pessoas de dentro dos carros, caminhões, vans. Teve gente que, no desespero pra se salvar, foi parar em cima do teto dos veículos.

Foram muitos pedidos de socorro. O helicóptero da Polícia Militar foi acionado pra ajudar. Com um cesto suspenso na aeronave, policiais e bombeiros tentavam lutar com a força do vento pra ajudar quem já estava há cinco, seis horas, esperando auxílio.

Molhados dos pés à cabeça: retrato de um dia exaustivo de trabalho

Molhados dos pés à cabeça: retrato de um dia exaustivo de trabalho

Arquivo Pessoal

Pouquíssimas coberturas me deixaram tão exausto como aquela. Não era só o cansaço físico. Minha mente já pedia descanso. Foram horas, ao vivo, em meio ao caos prestando serviço. Naquele dia, eu, que estava de pé desde à 1h da manhã, só consegui ir embora da Record por volta das cinco horas da tarde. A gente, que já estava fora, não conseguia voltar pra emissora. E quem, por sorte, chegou a tempo pra trabalhar, não conseguia sair.

Eu moro há uns três quilômetros da TV e levei quase uma hora e meia pra chegar em casa. Não conseguia encontrar motorista por aplicativo. Os acessos estavam alagados. Não dava nem pra ir a pé. E, pra piorar, meu celular estava quase descarregado.

Minha preocupação, a todo instante, era: “a que horas vou conseguir chegar em casa, tomar banho e descansar?”.  Depois que tudo se ajeitou e, já com a cabeça no travesseiro, comecei a pensar nas pessoas que vi saindo debaixo de um cômodo improvisado na Ponte das Bandeiras com crianças no colo e meia dúzia de coisas debaixo do braço. Ali, estava perigoso pra elas, sim. Mas, certamente, iriam pra outro lugar ainda mais complicado e arriscado.

Pensei na situação de quem, diante do desespero, devia estar se perguntando: “pra onde é que eu vou?”. Eu demorei pra chegar, mas sabia que tinha uma casa me esperando. Cheguei bem, apesar do caos.  Mas e esse povo que não tinha pra onde ir?

O que sei é que o jornalismo me apresenta situações que, quase nunca, ficam só no campo profissional. Por vezes, costumo remoer as histórias que vejo, ouço e conto. Se isso é bom ou ruim? Não sei. Depende do ponto de vista. Mas pegando o positivo como referência, acho que me aproximo mais do que considero importante pra evoluir como ser humano. Pra justificar minha existência no mundo.

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