O essencial é invisível ao bolso

Se eu pudesse falar com a médica, que humilhou o cinegrafista e que me despertou pro desabafo de hoje, eu diria que um repórter cinematográfico vale muito mais do que as cifras que ela deve ter no banco.  

Você, pra mim, não vale nada. Câmera, pra mim, não vale nada.

Médica, que não teve o nome divulgado, ofende cinegrafista em balada com 1.500 pessoas

O gatilho pra nossa conversa de hoje é uma cena protagonizada por uma médica, em São Paulo. Ela foi flagrada, há menos de uma semana, numa festa luxuosa que reunia mais de 1.500 pessoas em plena pandemia. Só o camarote custava R$ 18 mil. Dinheiro, ali, não era problema.

Enquanto a Polícia Civil colocava todo mundo pra fora, a mulher, descontrolada, se irritou com a presença dos jornalistas. Não era eu o repórter naquela noite. Estava de folga. Mas como tenho acompanhado, praticamente, todas as ações da força-tarefa em eventos clandestinos, quero compartilhar, a partir desse exemplo, os bastidores desse tipo de cobertura.

A médica, bem-sucedida, se dirigiu a um cinegrafista e, com todo o desprezo do mundo, disse: “Eu salvo vidas. Você fica aí, filmando os outros”. Como se não bastasse, ela continuou as ofensas: “Você, pra mim, não vale nada. Câmera, pra mim, não vale nada”.

Médica humilha
 cinegrafista em balada clandestina: "você, pra mim, não vale nada"

Médica humilha cinegrafista em balada clandestina: "você, pra mim, não vale nada"

Reprodução/Record TV

Preciso respirar fundo e conter minhas palavras enquanto escrevo. Eu sou um ser humano, como outro qualquer, e também sinto raiva. Ver essa médica falando me causou o pior dos sentimentos. Enquanto ela festava, mesmo sem poder, o cinegrafista e outros profissionais estavam, ali, trabalhando.

Cobertura de festas clandestinas, em São Paulo: "já perdi as contas"

Cobertura de festas clandestinas, em São Paulo: "já perdi as contas"

Reprodução/Record TV

Já perdi as contas de quantas ações da polícia eu acompanhei nos últimos meses. Também já perdi as contas de quantas vezes fui achincalhado, com a minha equipe, durante esse trabalho. Em geral, quem é flagrado nesse tipo de aglomeração, se acha no direito de questionar o nosso ofício, como se nós, jornalistas, fôssemos culpados. Como se nós estivéssemos errados. Como se nós estivéssemos inventando números. Como se a pandemia não existisse. Como se tudo fosse uma falácia da mídia. Quem dera nada disso fosse verdade, mesmo. Quem dera.

A gente sai de casa e deixa quem mais ama dormindo. Tenho cinegrafistas e auxiliares que mal encontram a família, as esposas, porque os horários, simplesmente, não batem. Tenho colegas que, malemá, conseguem brincar com os filhos pequenos. Então, é difícil engolir seco as palavras de alguém que, mesmo estando errada, se acha dona da verdade ao dizer em alto e bom som: “você, pra mim, não vale nada”.

Sim, eu tomei as dores daquele colega, mesmo não estando naquele plantão.

Nós somos provocados. Nós somos xingados. Nós somos ameaçados. A gente ouve, constantemente: “se mostrar minha imagem, vou processar”. Nossos cinegrafistas são confrontados o tempo todo. Nós, todos, estamos expostos ao risco do contágio do vírus, inclusive. Ainda assim, a gente tenta manter o equilíbrio pra não perder a razão.

Recentemente, meus colegas Thiago Gardinalli e Ricardo Bonifácio, repórter cinematográfico com quem trabalhei por tanto tempo e por quem tenho o maior carinho, levaram um verdadeiro banho de cachaça. Os frequentadores de uma festa, revoltados, como se tivessem motivos, foram pra cima da equipe de reportagem arremessando copos e bebida alcoólica. Os dois saíram de lá encharcados.

Certa vez, enquanto estava ao vivo, fui chamado de mentiroso pelo dono de uma balada. Ele me ouvia falando e, simplesmente, não concordava comigo. Numa outra ocasião, me lembro bem, ameaçaram jogar água na gente durante um link. Acredite. Esse tipo de pauta não é a que mais nos agrada. Só o que a gente faz é cumprir nosso dever. É reportar.

Jovens aglomerados, em festa, durante pandemia

Jovens aglomerados, em festa, durante pandemia

Divulgação/Polícia Civil

A gente se sente no meio do fogo cruzado. De um lado, encara a fúria e a cara feia do empresário, que enfrenta o prejuízo; do outro, a adrenalina da ação policial, sempre imprevisível; e ainda tem todos os contratempos provocados pela turma que sempre exagera no gole.

Se eu pudesse falar com a médica, que humilhou o cinegrafista e que me despertou pro desabafo de hoje, eu diria que o exemplo dela não condiz em nada com o juramento que, um dia, ela fez pra exercer a profissão. Diria que não se “salva vidas”, apenas, de segunda a sexta-feira. Que um cinegrafista, seja profissional ou amador, vale muito mais do que as cifras que ela deve ter no banco.

Diria, por fim, e com todo o respeito, que ela mostrou ser, extremamente, pobre ao ponto de ter, apenas, dinheiro. Parece entender pouco de valores. Só de custos, mesmo. E isso, sim, pra mim, não vale nada.

Últimas