Quando me vi dentro da cracolândia 

Aquele era meu primeiro contato com a cracolândia. Um lugar sujo. Lixo espalhado. Um cheiro forte de urina misturado ao cheiro de drogas. Pra onde eu olhava, via usuários andando sem rumo pelas ruas. 

Cracolândia, no centro de São Paulo: lixo espalhado por toda parte

Cracolândia, no centro de São Paulo: lixo espalhado por toda parte

Reprodução/Record TV

Assim como a maioria esmagadora da população, eu também só conhecia a cracolândia pela TV. Até o dia em que precisei colocar os pés lá dentro pra acompanhar uma operação policial contra o tráfico de drogas. Confesso que, num primeiro momento, fiquei meio apreensivo. Eu não tinha nem três meses de São Paulo ainda. Havia acabado de chegar do interior. Estava aprendendo os macetes da maior metrópole do País.

Além disso, eu sabia dos riscos de uma cobertura como aquela. O histórico da cracolândia é de intensos confrontos quase sempre que a Polícia ou a Guarda Civil Metropolitana precisam fazer alguma intervenção no local. E, naquele dia, a megaoperação contava com um efetivo grande. Eram mais de 300 homens das Polícias Civil e Militar, além de guardas municipais.

Um detalhe interessante de bastidor é que só descobrimos o alvo da operação durante a própria operação. Só o que sabíamos, às 6h da manhã, era que dezenas de viaturas sairiam em comboio da sede do Denarc (Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico). Ali, identificamos que o foco seria o combate ao tráfico. Mas onde os mandados de prisão e de busca e apreensão seriam cumpridos, não fazíamos ideia.

Fizemos uma entrada, ao vivo, no Balanço Geral Manhã mostrando essa movimentação. É o que a gente chama de “esquenta”. Logo depois, decidimos seguir as viaturas. Foi durante o trajeto que nós descobrimos que a operação seria feita na cracolândia.

Ao vivo, no Balanço Geral Manhã, durante operação da polícia contra o tráfico de drogas

Ao vivo, no Balanço Geral Manhã, durante operação da polícia contra o tráfico de drogas

Reprodução/Record TV

Comigo, estavam o repórter cinematográfico Zé Paulo e o operador de sistemas Ricardo Mendes, o Tio Chico. Aquele era meu primeiro contato com a cracolândia. Um lugar sujo. Lixo espalhado. Um cheiro forte de urina misturado ao cheiro de drogas. Pra onde eu olhava, via usuários andando sem rumo pelas ruas. Outros, estavam deitados, dormindo em pedaços de papelão. Quando muito, havia um cobertor, já bastante surrado, pra protegê-los do frio das primeiras horas do dia.

Parecia mais um cenário de guerra. Aliás, não que não seja. Ao redor daquela realidade, vivem centenas de pessoas que são obrigadas a conviver com um dos lados mais obscuros de São Paulo. Enquanto eu observava tudo aquilo, ficava de olho na movimentação policial. Os agentes, fortemente armados, se posicionavam estrategicamente nos pontos de maior concentração de usuários. Todos os acessos da região central estavam cercados. A mobilização era grande por terra e por cima, com helicópteros da Polícia.

Naquele dia, não houve nenhum confronto. Mas, claro, que houve um princípio de confusão. Os usuários costumam ficar rebeldes com esse tipo de ação, sobretudo quando a imprensa está presente. Ali, o alvo eram traficantes infiltrados em meio ao caos humano. Os policiais conseguiram prender 17 pessoas. Dez a partir de mandados já expedidos e o restante em flagrante. Muita droga também foi apreendida.

Em tempo real, a movimentação de policiais durante operação na cracolândia

Em tempo real, a movimentação de policiais durante operação na cracolândia

Reprodução/Record TV

Nós acompanhamos tudo, em tempo real, nos jornais matutinos da Record. Mostramos as prisões, ao vivo, entrevistamos delegados e permanecemos por vários minutos seguidos segurando aquela cobertura importante. Àquela altura, eu já não estava mais apreensivo. Tinha sido dominado pela adrenalina do factual, pela missão de não perder nada e pelo desafio de me superar em mais um dia de trabalho.

Ao mesmo tempo, eu ainda precisava lidar com minhas próprias impressões daquele cenário todo. Certamente, eu jamais pisaria os pés na cracolândia se não fosse por conta do meu trabalho. Mas já que precisei estar lá -  e, depois daquele dia, fui outras tantas vezes – fiz questão de usar aquilo como experiência de vida, inclusive. Quando você vê, de perto, algo tão caótico, instantaneamente, sua cabeça passa a fazer reflexões, que nem sempre têm respostas. Mas, para um jornalista, a base da existência é, realmente, perguntar e se perguntar.

Aqui – nesse nosso espaço de conversa – não me cabe entrar no mérito sobre de quem é a responsabilidade por aquele lugar esquecido, às margens de uma São Paulo badalada, de oportunidades e pujante. Mas, sim, posso, além de contar os bastidores daquele dia e relatar meu olhar particular, propor que sejamos capazes de imaginar quantas histórias existem ali. Quanta exploração. Quanta dor. Quanta tragédia. Quanta tristeza. Quanto peso. Quanto descaso. Quanta criminalidade. Quanta humilhação. Quanta vida irrecuperável. Quanta gente, sem culpa, que vive em casas, ali perto, como refém. Quanta dualidade. Quantos caminhos sem volta. Quantas escolhas erradas.

O quanto São Paulo ainda vai ter que lidar com isso? O quanto eu ainda terei que pisar, ali, pra reportar tudo isso, pra mostrar o mais do mesmo? Por quanto tempo o mesmo cenário vai destruir vidas diferentes? 

Veja parte da cobertura que fizemos, ao vivo, durante o Balanço Geral Manhã.

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