Tiro, porrada e bomba

Eu sabia que seria uma cobertura tensa. Só não imaginava que seria tanto.

A confusão começou antes mesmo do início da reintegração de posse. Chegamos ao local por volta das 4h30 da manhã. Policiais Militares já estavam posicionados em frente ao imóvel que seria desocupado. Mas a ação só poderia começar a partir das 6h.

Assim que desci do carro, percebi uma movimentação mais acalorada na calçada. Eram os ocupantes da área, que iniciavam um movimento de protesto contra o cumprimento do mandado judicial. E aqui, cabe dizer que a decisão é da Justiça, não da polícia. Mas os manifestantes, evidentemente, se rebelam contra os agentes que estão ali, apenas, pra acompanhar todo o processo.

Enquanto eu me preparava pro início do jornal, checando áudio, vídeo e ajeitando o ponto no ouvido, passei a ouvir uma gritaria. Quando olho em direção às famílias, dezenas de pessoas jogavam pedaços de madeira no meio de uma das mais importantes avenidas da zona norte de São Paulo. Pensei, instantaneamente: "vão atear fogo".

Manifestantes tentam impedir reintegração e colocam fogo no meio da avenida

Manifestantes tentam impedir reintegração e colocam fogo no meio da avenida

LUCAS CARVALHO

Dito e feito. Uma barricada começava a se formar. O fogo aumentava e fumaça se espalhava. Rapidamente, avisei à coordenação de link sobre o que estava acontecendo. Até porque, como eu disse, a reintegração de posse começaria, mesmo, só a partir das 6h. Naquele minuto, não só o meu assunto, como também toda a paginação do Balanço Geral Manhã mudou completamente.

Abrimos o jornal, ao vivo, às 5h com imagens da confusão. Só a gente estava acompanhando. Era notícia quente, literalmente, e exclusiva da Record. Passamos, praticamente, toda a primeira hora do programa repercutindo o assunto.

Eu sabia que seria uma cobertura tensa. Só não imaginava que seria tanto. Do outro lado da avenida, enquanto os manifestantes impediam o trânsito, um batalhão de policiais se preparava pra entrar em operação. Homens, armados, e devidamente protegidos, com escudos e coletes à prova de bala, iniciavam as estratégias para conter a multidão revoltada.

O apresentador Eleandro Passaia estava falando quando me viu correndo, desesperado. "Tá correndo, o Lucas? O que é que foi, Luquinha? Qual o desespero, meu irmão?", perguntou. Eu estava envolvido numa agitação descabida. Os policiais tinham acabado de disparar uma bomba de efeito moral. Aquilo causou correria e eu comecei a narrar toda aquela cena de guerra em tempo real.

Tenho mantido uma sequência regular de exercícios físicos, mas convenhamos que falar, observar e correr, usando calça e blazer, não é uma tarefa simples. Antes mesmo de o sol aparecer, eu já estava suando. O calor se misturava à minha adrenalina. Ao mesmo tempo que o repórter cinematográfico, Daniel Macedo, e eu tínhamos que ficar atentos à imagem, precisávamos cuidar da nossa própria segurança.

Tudo começou tão rápido que a gente nem teve tempo de colocar o colete à prova de bala, geralmente usado em ações desse porte. Ali, era contar com Deus. Era acreditar na proteção que peço todos os dias antes de sair de casa pra trabalhar.

Policiais avançavam e os manifestantes não arredavam o pé. Eles estavam irredutíveis. Diziam que não saíram de lá de jeito nenhum. A tropa de choque passou a fazer disparos frequentes, usando bombas de efeito moral. Uma delas, por pouco, não acerta uma mulher com uma criança no colo. Aliás, o que mais tinha eram mulheres carregando bebês. Imagine só o desespero.

Foi uma transmissão emocionante. Emocionante do ponto de vista de mexer, realmente, com os nossos ânimos. Ali, enquanto repórter, procurei ser o mais justo possível. Demos voz às famílias, ouvimos as lideranças, mostramos a realidade, conversamos com a polícia, acompanhamos todo o processo tenso de negociação. Sem sombra de dúvidas, foi uma das coberturas mais agitadas que participei.

No meio do fogo cruzado: confusão em reintegração de posse

No meio do fogo cruzado: confusão em reintegração de posse

Reprodução/Record TV

Qual o sentimento de um repórter no meio do fogo cruzado? Você pode estar se perguntando. São vários. A gente, primeiro, se envolve com as histórias. Independentemente do que é certo ou errado, toda aquela gente é personagem de uma história de desigualdade que ninguém foi capaz de resolver no Brasil. São pessoas em busca de moradia. Nem todo mundo é "nóia", como pensa o senso comum. Existem, realmente, pessoas muito honestas que não conseguem estar numa condição melhor. É fato.

A gente também sente a tensão do momento. Ao vivo, eu posso ser surpreendido a qualquer momento. E, ali, era exatamente isso que estava acontecendo. Cada bomba lançada era um susto. Era uma expectativa. Passo a narrar no mesmo compasso do meu coração. Passo a falar com a voz ofegante, alterada. Passo a transparecer o calor do momento. É uma adrenalina, um nervoso, uma ansiedade, um frio na barriga, coisas que só o jornalismo ao vivo pode oferecer.

Particularmente, eu gosto. Gosto da cobertura que me desafia. Me sinto testado. Esse é um tipo de combustível. Naquele dia, ficamos a manhã toda acompanhando o desfecho da história. As outras emissoras foram chegando depois. Possivelmente, viram na Record e correram pra lá. Isso acontece, não se iluda. As redações se monitoram, a concorrência assiste a concorrência e, assim, cada um vai garantindo o seu. Nem sempre a gente vai chegar primeiro. Mas a excelência está no que é exclusivo.

Policial fala, ao vivo, sobre a ação pra conter tumulto

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