Conversa de Repórter Tragédia no litoral paulista: o que vimos além da notícia

Tragédia no litoral paulista: o que vimos além da notícia

Nosso papel, ali, era reportar. Mas numa tragédia, como aquela, era difícil não colocar, mesmo que de forma sutil, minhas impressões sobre o que eu via. Não é dar opinião. É humanizar a narrativa. 

Bombeiros trabalham nas buscas por vítimas soterradas

Bombeiros trabalham nas buscas por vítimas soterradas

Reprodução/Record TV

A chuva começou durante a noite e se estendeu por toda a madrugada. O temporal, praticamente, devastou parte do litoral de São Paulo e provocou deslizamento de terra em morros da região. Guarujá, Santos e São Vicente foram as cidades mais afetadas.

Fomos pro Guarujá acompanhar o caos de perto. Comigo, estavam o repórter cinematográfico Ricardo Bonifácio e o auxiliar Felipe Leite. Nossa missão por lá duraria, pelo menos, dois dias. O cenário era desolador. A tragédia matou 45 pessoas, entre elas, dois bombeiros que trabalhavam nas buscas. Desse total, 34 vítimas perderam a vida no Guarujá, onde estávamos, após o Morro do Barreira vir quase todo abaixo.

Chegamos durante a madrugada. Ainda estava escuro, mas nem mesmo a falta de luz foi capaz de esconder, mesmo que por algumas horas, aquela cena terrível. Era difícil saber por onde começar aquela cobertura. Por onde a gente passava, havia rastro de sofrimento. 

Os bombeiros foram incansáveis. Num primeiro momento, o trabalho foi braçal. Com a ajuda de moradores, as equipes vasculhavam toda a extensão da área. Usavam pás, enxadas e pedaços de madeira na tentativa de localizar as vítimas. O uso de máquinas não seria uma alternativa viável, já que a esperança era de que bolsões de ar tivessem se formado sob a lama e pessoas com vida pudessem ser encontradas.

O cinegrafista Ricardo Bonifácio, o auxiliar Felipe Leite e eu enfrentávamos a dificuldade no acesso às áreas mais afetadas. Além dos riscos de novos deslizamentos – e, por isso, bombeiros e Defesa Civil limitavam nossa locomoção, num primeiro momento – havia, ainda, o desafio de caminhar pelo barro. Lembro que cheguei a atolar meus pés num local que mais parecia ser de areia movediça. Por sorte, eu usava uma galocha.

Repórter cinematográfico Ricardo Bonifácio e eu, posicionados: "vimos a fragilidade de perto"

Repórter cinematográfico Ricardo Bonifácio e eu, posicionados: "vimos a fragilidade de perto"

Arquivo pessoal

Nosso papel, ali, era reportar. Mas numa tragédia, como aquela, era difícil não colocar, mesmo que de forma sutil, minhas impressões sobre o que eu via. Não é dar opinião. É humanizar a narrativa. É transmitir a notícia sem armadura. É usar palavras fáceis, focar na imagem mais impactante, aquela que aproxima o telespectador da realidade que nós vivíamos ali.

Vimos a fragilidade de perto. Vimos o desespero no olhar do pai de família, que não sabia onde estavam os filhos e a esposa. Vimos o choro de quem buscava notícias sobre parentes e amigos. Vimos moradores atolando o pé na lama, mobilizando a comunidade pra entrar no meio dos escombros e ajudar a localizar pessoas desaparecidas. Vimos tristeza, emoção, coragem, fé, orações. Vimos solidariedade.

Homem recebe amparo de socorrista: 
"Vimos o choro de quem buscava notícias sobre parentes e amigos"

Homem recebe amparo de socorrista: "Vimos o choro de quem buscava notícias sobre parentes e amigos"

Reprodução/Record TV

A Guarda Municipal e outros agentes da segurança pública montaram tendas onde doações iam chegando. Água, comida e frutas ajudavam a matar a fome dos bombeiros, que, por horas, trabalharam, assim como a de pessoas que ficaram sem teto. Vimos a gentileza de uma senhorinha – que eu adoraria muito lembrar o nome aqui – fazendo questão de levar café pra gente, que corria de um lado pro outro nas entradas ao vivo.

No segundo dia de cobertura, nós conseguimos um acesso melhor ao morro. O trabalho das equipes de resgate fluiu melhor graças à ajuda de um empresário, que decidiu doar tempo e combustível pra manter um gerador de energia funcionando. Então, os bombeiros conseguiram trabalhar, inclusive, durante a noite/madrugada. A falta de iluminação já não era mais um problema.

É interessante ver essa corrente positiva que se forma ao redor de um cenário terrível. É esse bom senso, essa ajuda necessária, que torna a tragédia menos sofrida, se é que podemos dizer assim. A história, por si só, já cria um clima pesado. Mas a solidariedade e pequenas demonstrações de humanidade trazem algum acalento.

Nossa jornada durou dois dias fazendo participações ao vivo, reportagens gravadas e apuração em tempo real. Voltamos pra São Paulo com a sensação de que tínhamos oferecido o nosso melhor trabalho pra que a cobertura fosse a mais sensível e respeitosa possível. Cada acontecimento exige da gente uma postura emocional diferente. Penso que identificá-la e usá-la no momento certo seja o principal desafio de um repórter. Encarar a notícia, interpretá-la, transformá-la numa história e lidar com sentimentos – os nossos e os dos outros – é como se fosse uma gangorra em busca de equilíbrio o tempo todo.

Assista ao nosso relato, gravado para as redes sociais, no dia em que terminamos nossa jornada no Guarujá. 

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