Novo Coronavírus

A perda que não para de ocorrer

Curados da covid-19 não se livram das consequências da infecção apenas com o papel da alta hospitalar

Paciente internado em UTI do Hospital das Clínicas de Porto Alegre

Paciente internado em UTI do Hospital das Clínicas de Porto Alegre

Marcelo Olveira/EFE - 22.03.2021

Não está fácil pra ninguém, ninguém mesmo, lidar com o espalhamento do coronavírus e suas variantes globalizadas, com o aprofundamento das crises sitiadas em quartos de hospitais ou mesmo em corredores, a carência de pessoal de saúde com foco nos intensivistas e a falta de insumos como oxigênio e drogas para intubação (fora respiradores, não ouvi ainda sobre roupa de cama, aventais, esparadrapos, fraldas, monitores, dosadores, papel toalha e tantos outros itens que poderão estar na lista dos desaparecidos) durante e pós-covid 19.

Também há outra lista, de sequelas físicas e emocionais, que já está legível e começa a despertar o interesse popular e das autoridades da saúde para questões como sobreviver depois, o que nos aguarda desde o momento da alta hospitalar ao futuro do corpo, da mente e do bolso.

As pessoas que já purgaram o vírus e voltaram de alguma forma a vida anterior à internação, contam aos montes as dificuldades e nuances vividas agora. Os efeitos da doença são quase unanimidade entre esta população. Os mais comuns são perda de memória, diminuição do tônus muscular e da capacidade pulmonar, fraqueza generalizada, cansaço intenso e constante em tarefas indistintas, perda de equilíbrio do corpo, alergias, diminuição ou sumiço - ainda que temporária – do olfato e do paladar mesmo depois do fim do tratamento, dores abdominais e de cabeça e, por falar nela, prejuízos psíquicos e emocionais.

O problema se agrava no médio prazo com a incapacidade de, por exemplo, um trabalhador voltar à sua condição anterior ao contágio. É muito comum ouvir da boca dos que estão curados que não conseguem retomar o ritmo, seja qual for a função exercida. Isso, claro, vem prejudicando os ganhos individuais e, consequentemente, coletivos que perfuraram a roda da economia e ainda por cima impactam a arrecadação de impostos aos cofres públicos. Mais um ponto a se pensar: quais são as consequências para o cidadão e para a sociedade e o estado desse encolhimento produtivo? O declínio da força de trabalho por debilidades físicas e psicológicas é de fácil aferição pelas autoridades do setor, acreditamos, mas, de fato, uma vez com os números em mãos, saberemos como (re)agir?

Existem entidades do Terceiro Setor medindo o impacto (espero que do governo também!) em vários campos de atuação da sociedade, contudo, teremos como repor na cabeça dos milhões de estudantes o conhecimento represado e, até certo ponto, perdido ou esburacado? Em qual tempo e com qual custo? E a formação de alto nível daqui a 2, 5, 8 anos, está comprometida?  Conseguiremos formar pessoas devidamente qualificadas para atender demandas de alta complexidade e tecnologia nas áreas médica, espacial, industrial ou educacional, por exemplo?

Quanto ao país, este aguentará estancar a calamidade pública de saúde que deslocou milhões de concidadãos nossos ao espectro da fome, do desespero e, num mesmo vetor, da miséria?

Perdemos todos com insanidades que se mostraram nocivas com o aprofundamento de notícias mentirosas, o que cabe uma reflexão mais adiante; agora, o que interessa mesmo é dar continuidade à vacinação e informar corretamente a população do que é certo fazer daqui para frente.

Para quem ainda não consegue entender a dimensão do que está em jogo, são 1, 2, 37, 480, 7.026, 90.512 e, daqui a pouco, pouco mesmo, serão 300 mil corpos humanos já sem vida, sepultados ou cremados do Oiapoque ao Chuí, por conta do coronavírus ‘pai’ e sua família de mutantes.

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