A quem servimos quando navegamos?

O processamento dos dados que circulam sobre e entre nós enquadra uma liberdade cada vez mais vigiada e enfraquecida

Mark Zuckerberg, criador e dono do Facebook

Mark Zuckerberg, criador e dono do Facebook

Charles Platiau/Reuters - 24.05.2018

Afinal, nada que fora revelado, de fato, fez-se uma surpresa aos nossos olhos. Parece apenas que havíamos adiado uma narrativa difícil de encarar porque, queiramos ou não, sabemos que, lá atrás, perdemos parte ainda existente do controle da vida de cada um de nós.

O texto inicial pode parecer uma charada a se desvendar. Mas não é. Falo dos recentes ataques que a big tech Facebook recebeu de uma de suas ex-colaboradoras ao depor no Senado norte-americano, há uma semana. Se sabíamos por ‘ouvir dizer’, os relatos de Frances Haugen, ex-gerente de produtos da plataforma, materializaram os problemas decorrentes da exposição de múltiplas populações aos algoritmos que as encarceram, conduzem, induzem e impregnam quando não mutilam, fazem adoecer e até mesmo pôr fim à vida, sem exageros.

Com ampla repercussão, tanto as pesadas críticas quanto as defesas – estas protagonizadas pelo fundador do império, Mark Zuckerberg – viralizaram (usando uma terminologia da hora) na imprensa mundial e impregnaram rodas de discussão na própria rede e nas concorrentes. Dessa maneira, colocaram coletivos de pulgas atrás das orelhas de chefes de estado e especialistas em saúde mental. Vale o caro leitor acompanhar, se ainda não fez o dever de casa porque ela levanta questões viscerais que não cabem aqui, mas inescapáveis se queremos saber sobre consumo, privacidade, manipulação, indução comportamental.

Cruzando conexões, Stuart Russell, pesquisador e professor de computação da Universidade da Califórnia em Berkeley (Estados Unidos), há muitos anos vem estudando a chamada Inteligência Artificial e sua relação com o ser humano. Defensor de uma rede de algoritmos, digamos, ‘do bem’, o especialista é mais um a chamar a atenção para o que andamos fazendo com as vivências humanas e aprendizados das máquinas. Nessa linha de raciocínio, para quem assistiu ao documentário ‘O Dilema das Redes”, dentre outros espalhados pelo streaming e You Tube, fica a impressão de que realmente estamos sendo manipulados o tempo todo, desde quando abrimos os olhos ao acordar até o último bocejo e a puxada da coberta que deixa os pés vulneráveis; há quem diga que até nos sonhos estão ‘vendo a gente’. Será? Dessa maneira não, mas...

O debate e torno dessas manipulações algorítmicas, que nos fazem ficar mais tempo do que precisaríamos de fato ficar em um site, por exemplo, ou mapeiam com assustadora mira nossos comportamentos nas redes sociais, os cliques e os intervalos entre eles, é imperioso. Com isso, nos direcionam informações que julgam de nosso interesse, bem como ofertam conteúdos editorial e publicitário ‘na medida’ de nossas navegações e interesses.

No rastro dele está pautada toda uma cadeia de tentativas de políticas públicas que se espera honesta e nada rançosa, visando não necessariamente a censura, mas algum tipo de regulamentação ou controle social para que haja uma maior responsabilização por meio das empresas. Paralelo a isso existe a urgência em se discutir oligopólios de meios de comunicação, propriedades cruzadas destes e maior democratização na sua vocação social. Para ilustrar, quando há exatos sete dias caiu por cerca de sete horas a plataforma do Facebook no mundo inteiro, saíram do ar também suas irmãs ‘adotadas’ Instagram e WhatsApp, causando alvoroço, sofrimento e perdas financeiras nos quatro cantos do planeta. Tudo nas mãos de um jovem bilionário controverso, investigado com alguma seriedade nos EUA e Europa.

Tudo na comunicação que nos informa tem, ao menos dois lados, e é de extrema importância que não só saibamos disso como passemos a buscar conhecer versões de um mesmo fato, algo crucial e incontornável, por exemplo, no jornalismo, feito à luz das verdades a serem ditas, gostando-se de seu conteúdo ou não. O profissional da comunicação não deve se preocupar em atender acenos ou mensurar ‘likes’. Se a vida é o que é, não é papel deste desamassar o pão e passar manteiga nele. Hashtag, fica a reflexão.

Em tempo. Por falar em tecnologia da informação, redes neurais, metadados, IA, passando por investimentos cada vez mais necessários em ciências da computação, entre outras tão inadiáveis pesquisas e melhorias urgentes, choramos aqui o recentíssimo corte de 600 milhões de reais do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, assinado pelo Ministério da Economia. Hashtag, fica no meio do caminho

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