Novo Coronavírus

Alguém se lembrou dos albinos?

Falta às autoridades o olhar apurado para dar conta de grupos minoritários durante a imunização contra a covid-19

Pessoa albina

Pessoa albina

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Andamos assistindo no Brasil, desde a liberação da vacinação para combater a atual pandemia, atropelos, furadas de filas, alguma inquietação quanto à disponibilidade da segunda dose em tempo hábil e  inacreditáveis cenas, como a de uma ‘profissional da saúde’ em Alagoas que passou um algodão no braço de uma idosa, pôs o dedo no êmbolo da seringa e não o apertou para, em seguida, assear novamente o local da suposta picada. Não dá pra escapar do infame trocadilho; é o fim da picada tudo isso.

Mas vamos em frente. Apesar dos absurdos e em meio à repercussão de notícias boas e ruins sobre a vacinação, uma das coisas que mais chamam a atenção da população é quando chegará a vez de cada um. Pergunta-se sobre grupos de riscos, cobra-se uma punição aos fura-filas (num país que ignora o vexame da carteirada!), discute-se acerca de categorias profissionais que devem ou não entrar nas listas de prioridades, dos educadores e a volta às aulas, se cabe (mesmo!) imunizar detentos etc.

Dentre inúmeras comunidades formadoras da sociedade, uma anda sempre meio esquecida e não apenas em tempos de pandemia. Os albinos, cuja condição genética apresenta uma mutação que prejudica ou mesmo impede a produção de melanina que dá cor à pele, aos pelos/cabelos e olhos, costumam frequentar uma certa marginalidade e, porque não, preconceito quanto à visibilidade e peculiaridade em relação as suas demandas para garantir a saúde e dignidade.

Não se sabe quantas são as pessoas nessas condições (os números variam pelas fontes e o IBGE não inclui essa medição nos questionários) mas a  pandemia, na opinião dos dirigentes da Associação das Pessoas com Albinismo na Bahia, impactou os albinos com redução nos atendimentos de saúde, e não só pelo fato das instituições terem de priorizar os pacientes de covid-19; as pessoas com albinismo sentiram a necessidade de se isolarem ainda mais como prevenção contra o vírus.

De acordo com a APALBA, esta população deve ser classificada como grupo de risco e ter prioridade no Programa Nacional de Imunização contra o coronavírus já que não pode se expor ao sol e necessita de reposição de vitamina D para aumentar a imunidade e evitar sequelas do albinismo. Lembra a associação que esta vitamina é a responsável pela saúde dos ossos e músculos e, sem ela, ‘não conseguiriam nem ficar em pé’.

Segundo a Organização das Nações Unidas, embora não existam dados completos, a prevalência do albinismo é maior entre as populações indígenas e afrodescendentes - incluindo comunidades quilombolas. O PNI já inclui esses na vacinação, no entanto, parece que os albinos de fora destes nichos estão ou foram negligenciados pelas autoridades.

Conversando com portadores de albinismo ouvidos pela entidade baiana, a maioria concorda com a inclusão do coletivo na lista de prioridades do programa de vacinação, assim como sente que houve uma piora na visibilidade deles. “Na pandemia fomos obrigados a nos esconder”, ressalta uma delas. Mais extensa, a reflexão de outra albina avança sobre mais questões: “em relação à sociedade, devido ao acesso à Educação nos últimos 15 anos, a discriminação explícita (xingamentos nas ruas, escolas) diminuiu, porém, ainda percebemos muita dificuldade em socialização e aceitação”. 

Assim, pergunta-se por que não incluí-los não só na imunização contra o coronavírus mas em tudo que diz respeito à plena cidadania e entrosamento social? Disseram bastante, e se mais espaço houvesse, por certo, mais seria dito aqui sobre capacidade de mobilização, empatia, solidariedade, normalização das relações sociais, diálogos, direitos, acessos, miopia racial, segregação, esquecimento, dor, emoções, olhares, (in)completudes, toques.

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