As muitas obras do rei

Não é tão difícil perceber que, no Brasil, o cheiro daquilo que não é desejado por perto ora está bem embaixo de nossas fossas nasais

O atual mandatário usa e abusa de uma coletânea de palavras, gestos, gafes e atos que destoa do razoável

O atual mandatário usa e abusa de uma coletânea de palavras, gestos, gafes e atos que destoa do razoável

Alan Santos/PR - 26.06.2021

A História, com letra maiúscula, nos ensina que a aventura do Homem sobre a Terra, entre muitas desventuras, está umbilicalmente ligada a conquistas, ao desenvolvimento em larga escala da linguagem e artefatos para a lida, à construção e a sua antítese, à ruína.

Sim, somos mestres em acabar com algumas coisas, principalmente na política, na qual ganhos anteriores ao projeto do agora, vira e mexe, escorrem ralo abaixo por conta de inúmeros fatores que a ciência política muito bem sabe mapear e apontar. O problema não é a ciência, sabemos desde o Iluminismo, mas o que se (não) faz com ela.

Como substrato, acabamos produzindo políticos antropofágicos nesse ciclo de ordem e desordem que chegam nas camadas superiores da cadeia alimentar para delas se alimentarem e se fortalecerem cada vez mais. Infelizmente, na grande maioria das vezes, fazem essa escalada pisando em cima do derretimento de direitos cidadãos outrora adquiridos e da confiança depositada ano a ano nas instituições públicas (Exército e Corpo de Bombeiros, por exemplo).

Quando um desses políticos, pelo voto direto e inalienável de uma maioria populacional, é por ela eleito para um cargo público de extrema responsabilidade e consequente visibilidade e vigilância por parte da imprensa como é o caso de prefeito, governador ou presidente da nação (portanto, de todos que nela vivem), não haveria o que se falar em termos do bom  comportamento esperado, pois deste cidadão ou cidadã se espera algum zelo pela chamada ‘liturgia do cargo’ e uma liderança efetiva na condução da administração pública, seja em qual ente federativo for.

O que se vê e se espalha como detrito humano no ventilador hoje é o contrário. O atual mandatário do país usa e abusa de uma coletânea de palavras, gestos, gafes e atos que destoa do mínimo razoável. Pego aqui somente dois aspectos, para ficarmos num número reduzidíssimo a fim de evitar que laudas e laudas sejam preenchidas. Um deles é a recente frase de que, se não houver impressão eletrônica dos votos a serem digitados nas atuais urnas eletrônicas no pleito de 2022, não haverá eleição!

Opa, como assim ? Afora toda a questão regimental, legislativa, financeira, conceitual, jurídica e até filosófica da adoção ou não do artifício (sou contra, deixo claro), um presidente da República, ungido nas urnas justamente pelo voto eletrônico e não impresso, em plena democracia, jamais, repito, jamais deveria sequer citar uma chantagem dessas em pleno gozo do mandato. Por um acaso a possibilidade de alternância do poder saiu do catálogo das democracias? Talvez eu esteja precisando ler mais.

Para cumprir o prometido, a segunda perturbação que o chefe da nação criou também nestes dias diz respeito ao encaminhamento de questões a ele dirigidas em virtude de esclarecimentos que se fazem necessários à CPI da Covid, em funcionamento no Senado Federal. Questionado sobre o que pensava dessas perguntas vindas de uma Comissão Parlamentar de Inquérito legalmente instalada num dos 3 pilares da tríade republicana (Poder Legislativo), utilizou-se da retórica escatológica, de um palavreado chulo, de um verbo no pretérito perfeito do indicativo e, pior do que tudo isso, do desprezo, para dizer que não estava nem aí para o documento.

A nação, pasma, assiste a um espetáculo grotesco de ínfimo nível pessoal levado via satélite à esfera pública internacional, causando a tal vergonha alheia e a própria, pois nos colocamos a refletir, diante desse quadro, o que pensam de nós os outros países com os quais fazemos negócios ou a eles nos dirigimos para turismo? O que pensamos nós como país? O que pode nos ensinar Câmara Cascudo, os intelectuais ‘antropofagistas’ de verdade de 1922, Darcy Ribeiro e tantos outros, hoje negados, cancelados, negligenciados, cuspidos, defecados das bibliotecas ‘palmares’ da vida...?

Como chegamos até aqui?

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