As nossas linguagens corporais na Política

O uso das palavras e seu contraponto na defesa física dos argumentos

Difícil explicar porque essas violências acontecem

Difícil explicar porque essas violências acontecem

Ueslei Marcelino/Reuters - 03.05.2020

Os momentos ociosos têm acrescentado ao repertório individual uma infinidade de novas informações a um toque de dedo. Basta termos um tempinho para o quadrante noroeste do nosso polegar (nos destros, diga-se) deslizar pela tela de um celular e, pronto, em meio segundo já não estamos mais onde estávamos.

Do clic seguinte surgem símbolos gráficos formando uma coisa que aprendemos a decodificar pelo domínio da leitura, ou ruídos que entram pelos tímpanos também liberando rapidamente uma reação da mente que, a grosso modo, manda um impulso nervoso para a boca abrir em risos ou palavras, para a testa franzir ou a mão mexer.

Parece ‘nada a ver’, mas vendo com um certo privilégio que hoje tenho os acontecimentos na política em São Paulo e em Brasília, penso que dentro e fora deste universo simbolicamente riquíssimo, cheio de figuras de duplo sentido e métodos de linguagem, o corpo humano transmite mensagens o tempo todo e por inteiro, e estendo a análise para as vestimentas, cores (ou sua ausência) e toda sorte de informação que pula do indivíduo ou de seu entorno.

Nestes tempos que os calores das opiniões extrapolam o circo político estabelecido, pudemos testemunhar os panos brancos e verde-amarelos se descosturando por fortes puxões em praça pública da capital federal. Pelo mundo (pode não parecer, mas o Brasil está nele) temos visto até os chamados heróis do panteão da saúde sendo alvos de verborragia, preconceitos e agressões físicas. Vai explicar ao marciano por que isso ocorre!

Se por um lado braços e nervos andam falando mais do que pelos cotovelos sobre todo o universo de temas nos últimos insensatos tempos, por outro estamos aprendendo mais com a linguagem bucal as finas ironias e os sarcasmos necessários para enfrentar uma escuridão que volta e meia paira sobre nós em alguns lugares do planeta. Para decifrá-las dignamente, óbvio, há que se ter alguma bagagem na vida. 

Em paralelo estão as metáforas presidenciais. Lembro rapidamente das futebolísticas para análises sociológicas do ‘pai do povo’, numa alusão varguista de ‘pai dos pobres’. Também há a gíria, o punho cerrado com veias expostas e o olhar no infinito, e o jargão farpado de sentinela.

Caso a sociedade tivesse oportunidade de, uma vez emancipada nas letras, saber distinguir de fato o que é conotativo, clichê, marketing, usurpação, hipérbole, pleonasmo e outras também importantes situações linguísticas, poderia fazer uma leitura mais ampliada dos atos e de seus autores e, dessa maneira, decodificar melhor os métodos para bem reagir sem que músculos provocassem ou tomassem as dores do pensar. Até porque pensar não dói.

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