Meio Ambiente

As últimas ensurdecedoras agonias da nossa Terra

Se pudesse falar em seu quase leito de morte, o planeta provavelmente pediria um copo de água potável e um bocadinho de ar limpo

Fenômenos da natureza mostra que estamos caminhando a passos largos e trêmulos para um abismo que já se encontra aberto e dentro do nosso campo de visão

Fenômenos da natureza mostra que estamos caminhando a passos largos e trêmulos para um abismo que já se encontra aberto e dentro do nosso campo de visão

Reuters - 30.09.2021

O mar não está pra peixe quando o assunto teima em não nos deixar descansar na rede. Parece que o disco, aquele velho Long Play de vinil extraído do petróleo, anda riscado em insiste na repetição mântrica de que ou revertemos, globalmente, a sangria da qual padece o planeta quando involuntariamente se entrega aos humanos pelo processamento maciço de seus nutrientes minerais, vegetais e animais, ou morremos nós, porque no ritmo em que as coisas andam, o futuro da humanidade será curto e doloroso. O presente assim já desenha o rascunho.

Organismos multilaterais municiados com respeitados dados científicos feitos em conjunto internacionalmente vêm alertando, com mais frequência e intensidade, que o clima está ‘maluco’, pra usar um termo que todos entendam. Secas prolongadas e fortes nas regiões já severamente castigadas pela falta de chuva, bem como em novas áreas, são um dos sinais de que a coisa saiu do controle quando comparados com coletas de informações anteriores. Inundações recentes na Europa e China chamaram a atenção pelo ineditismo da força e do momento em que ocorreram. Também não há muito tempo, incêndios florestais na Austrália e Portugal vitimaram pessoas, flora e fauna locais, além de causarem a destruição física de residências e estradas.

Sem contar os derretimentos cada vez mais rápidos e extensos de icebergs e placas descomunais de gelo no Círculo Polar Ártico, as ações vulcânicas incontroláveis, os terremotos e maremotos, assim como furacões e demais espasmos, espirros, tosses, diarreia e vômitos da mãe-natureza, estamos caminhando a passos largos e trêmulos para um abismo que já se encontra aberto e dentro do nosso campo de visão. Só não vê quem realmente conspira, suga ou não consegue interpretar os fenômenos descritos.

Quem não sabe das temperaturas médias subindo nos mares e na baixa atmosfera, ou dos refugiados ambientais? Quantos dos leitores nunca ouviram falar da extinção, migração territorial e mutações genéticas de animais por conta do meio ambiente em que naturalmente vivem ou viviam? Tá, e quem ainda ignora a falta quase completa de comprometimento e de políticas públicas para o enfrentamento destas e de outras tantas questões relacionadas?

Do ponto de vista de quem não tem a habilitação para este nada complexo entendimento das coisas em nível planetário, o que salta aos olhos pode estar no caminho de casa. É perto de onde moramos e trabalhamos que as pequenas ou grandes repercussões do desastre ambiental aparecem. São tempestades de poeira em regiões nunca assoladas antes por elas, enchentes rotineiras em várzeas de rios que inundam quintais e fazem boiar sofás e roupas, ressacas marítimas que destroem edificações plantadas à beira-mar por pobres e ricos, animas silvestres que chegam e entram nas casas das cidades sem serem convidados à piscina ou ao churrasco.

E no meio disso tudo autoridades públicas, eleitas ou autoproclamadas pais da nação, que em vez de agirem de fato para enfrentar a catástrofe ambiental e antropológica com a devida racionalidade baseada nos relatórios científicos (portanto, checáveis) de entidades sérias e com maturidade e responsabilidade diante das atuais populações e das gerações que nos sucederão, desprezam a fiscalização em cima de transações comerciais ilícitas de madeira/minério/espécies animais, incentivam algum tipo de genocídio de povos ancestrais que historicamente preservam seus habitats e fazem vista grossa ao açodamento de invasões de terras para mineração (lega ou ilegal, não importa), demonstrando desprezo, ignorância, ganância e falência múltipla dos órgãos (termo que você, leitor, pode interpretar amplamente). O crime tem várias faces.

Vale lembrar: países como Bolívia e Afeganistão retêm em seus solos minerais como o lítio, fronteira já bolinada para dar conta das baterias elétricas que movimentam carros e celulares hoje e máquinas voadoras individualizadas amanhã. Malásia e Brasil ainda, milagrosamente, têm algumas árvores nativas em pé.

Estas e outras coisas da natureza processadas em larguíssima escala pelas esteiras rolantes descendentes das primeiras máquinas à vapor da Revolução Industrial, somadas à imbecilidade mandatária de homens e mulheres dotados de poderes temporais apoiados por iguais detentores de muita grana e escassa empatia, são ingredientes que nos levarão, em curtíssimo tempo, ao fim da história. Quem sobreviver, verá, mas corre o risco de não ter a quem contar.

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