Carga explosiva dentro do cinturão

Policiais são pessoas da sociedade, que refletindo suas energias contidas  como humanos que são, também explodem

PM aponta arma para colega no centro de São Paulo

PM aponta arma para colega no centro de São Paulo

Arquivo pessoal

Dentre as milhões de cenas gravadas via celular cotidianamente mundo afora, umas naturalmente chamam mais a atenção do que outras pelo ineditismo ou inusitado nelas, pelo despropósito ou surrealismo que sugerem; ou ainda pela dura realidade que a instantaneidade e alguma coragem no momento da gravação criam ao captar a ocorrência.

Na semana que passou, do centro da capital paulista, surgiu um destas inacreditáveis imagens que, mesmo sendo de curta duração, prolongou-se à exaustão nas telas eletrônicas de forma colorida, tridimensional e perigosamente didática.

Dois policiais militares do Estado de São Paulo que estavam de serviço nas ruas centrais da maior cidade da América Latina, num bastante questionável ‘bico oficial’ chamado Operação Delegada - que é quando vendem à prefeitura horas de suas folgas para patrulharem locais em busca de prender maiores algarismos às casas decimais de sofridos holerites –, protagonizaram uma cena de extremo simbolismo defronte de dezenas de pessoas que se aglomeravam nas calçadas, ruas e entradas de comércios locais.

Um deles começou a discutir com seu colega de farda por conta, dizem, de atraso deste último com relação ao horário combinado do revezamento da hora do almoço. No calor dos fatos, o primeiro sacou de sua cinta a pistola .40 e a apontou para o rosto do parceiro que, aparentemente tentando desmontar a cena num primeiro instante, apenas contra-argumenta. Na sequência, parece que o ameaçado parte pra cima do que segura a arma numa tentativa de desarmá-lo. As imagens ainda estão sendo analisadas pela Corregedoria, mas o policial já se encontra preso.

Difícil saber se o pior disso tudo é a situação em si ou os populares que, entre risadas e ‘palavras de ordem’, incitavam um a atirar ‘na bunda’ do outro, formando um cordão bizarro e descomunalmente revelador de um monte de coisas que, se especialistas têm dificuldades de explicar até esgotar o repertório de argumentos, quem dirá nós, cidadãos comuns.

Sob anonimato o blog ouviu uma oficial da Polícia Militar e dois praças da mesma Corporação para tentar entender, ‘por dentro’ da Força Pública, o que tirar de lição nesse tipo de situação e o que ajuda a explicá-la.

Por qual motivo aconteceu isso? E a resposta a essa questão, para a oficial, é que a população está doente, extremamente estressada e sem respeito ao próximo. O policial, segundo a fonte, vem desta mesma sociedade adoentada e já entra na Corporação com muitos problemas. “Com a falta de reconhecimento, dos governantes e do povo, o estresse só aumenta”, afirma. Para ela, esses policiais envolvidos na ocorrência deveriam estar descansando de seu serviço ordinário, mas se submetem ao bico, um extra, para melhorar seus rendimentos. Um dos praças, que é cabo, disse que a citada operação foi aprovada pela maioria dos deputados da Assembleia Legislativa, legalizando o que não deveria ser estimulado, acrescentou.

Outra observação da oficial é que as falas ouvidas durante a gravação, com aparente incitação pública (não necessariamente anônima) ao disparo da arma de um contra o outro, deixa nítido que “o povo perdeu o amor ao próximo, torcendo sempre pela desgraça alheia sem se preocupar com o suicida, por exemplo, ou com o motorista de uma carreta acidentada e tombada, com a carga solta no chão ‘dando mole”.

A Polícia Militar do Estado de São Paulo soltou uma nota pública na qual taxa de “gravíssima e repulsiva a ocorrência” ...e que “a atitude viola frontalmente os valores fundamentais da instituição, especialmente a disciplina, a hierarquia, o profissionalismo, a honra e a dignidade humana, exigindo assim punições severas, na medida de sua gravidade”, continua. Há concordância dos entrevistados com o tom desta.

Conclui-se, também, que parece haver consenso entre os policiais ouvidos que a alta carga horária do serviço e o estresse naturalmente atrelado ao perfil do trabalho que se realiza, o pouco tempo de folga e do convívio familiar com a extensão de jornadas, os baixos salários e a ‘segregação’ entre oficiais e praças, de acordo com o soldado, somados à falta de reconhecimento pela população, pelo governo, pela imprensa e pela própria PM, à ausência de incentivo e de condições de trabalho, entre outras análises ainda em curso, ajudam a explicar o embate descrito.

Tomara que, além de tudo isso que foi levantado, as diversas e pertinentes leituras auxiliem a nortear o debate para que estes profissionais da Segurança Pública do Brasil inteiro possam ser, de fato, ouvidos, respeitados e bem remunerados a fim de que exerçam suas funções em plenas condições. Seu trabalho é essencial e isso se prova a cada instante de um dia inteiro.

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