Tóquio 2020

E ainda sim, conquistamos mais medalhas!

Mesmo com uma delegação vitoriosa por vários ângulos que se meça, o Brasil deve ao brasileiro patamares mais altos no esporte e na vida

A ginasta brasileira Rebeca Andrade e suas medalhas de ouro e prata conquistadas em Tóquio

A ginasta brasileira Rebeca Andrade e suas medalhas de ouro e prata conquistadas em Tóquio

Lindsey Wasson/Reuters - 02/08/2021

Finalizada, em 2021, a edição das Olimpíadas de 2020 neste último fim de semana, o Brasil saiu-se razoavelmente bem colocado no quadro de medalhas geral se comparado a todas as edições anteriores quando o assunto é o somatório delas. Mesmo aos trancos e barrancos com o evidente desnorteamento e esfacelamento das condições políticas internas, uma crise sanitária que matou mais de 500 mil pessoas, números parcos da economia com aumento da taxa básica de juros e retomada quase não percebida de alguns indicativos como emprego e exportação, os atletas brasileiros que treinam neste solo e águas superaram tudo para ter o merecido direito de pendurar no pescoço um pedaço de metal arredondado e reluzente que, claro, significa muito mais do que simplesmente a referência aos três elementos químicos que emprestam, cada um, sua luz.

Digo isso porque uma parcela dos esportistas que participaram destes jogos olímpicos, medalhistas ou não, teve condições diferenciadas de se preparar no exterior, onde para determinados esportes uma estadia em terras e em fluídos distantes fez e faz toda a diferença. Bolsas de estudo e patrocínios levados com a seriedade que se espera traduzem-se em meios adequados para que um atleta possa se dedicar ao máximo em seus treinos, contando ainda com acesso à melhor tecnologia e instalações, além de um clima muitas vezes mais apropriado à natureza de sua modalidade.

Há quem não ligue a mínima para isso e coloque no discurso tolices que não deveriam se misturar, mas acabam encobrindo a clareza dos fatos. O Brasil, apesar dos pesares, proporcionalmente à sua população sempre acaba contando com talentos múltiplos e variados em muitos esportes que, quase por milagre, são alcançados por olheiros e sensíveis técnicos da base. Se não fossem esses também verdadeiros heróis, não saberíamos da existência de Rebecas na ginástica, puxando apenas um exemplo.

A questão de fundo é o eterno e triste improviso com que se começam carreiras esportistas por aqui. Sim, ser atleta de ponta exige um arcabouço de condições que passam por alimentação em níveis corretos desde a primeira infância, apoio escolar, acompanhamento psicológico e médico, entre outras nuances. Raros são os que se revelam diretamente dentro de clubes estruturados e não circularam por projetos sociais de organizações não governamentais.

Ganhar musculatura, aqui a palavra em amplo sentido, requer do atleta renunciar a muitas coisas difíceis aos seres comuns, como convivência em família, horas de descanso, lazer e uma vida sem dor ou lesões. Cedo na vida, muitos dos descobertos, invariavelmente, têm que se deslocar de sua região nativa para ingressar em um mínimo de infraestrutura. Polos de excelência costumam ficar em grandes centros urbanos, longe dos celeiros onde grãos especiais germinam inexoravelmente.

Para uma nação vencedora nos esportes, a existência de uma política pública voltada a esta atividade social não costuma sofrer com interrupções de bolsas ou ameaças de corte de verbas no curto, médio e longo prazos. Para além das ideologias (sim elas sempre estiveram presentes nos esportes profissionais e amadores), países capitalistas e socialistas exitosos em campeonatos mundiais entenderam que o esporte de alto nível impacta positivamente a roda que os fazem girar, cada um no seu eixo. Os ganhos são estudados em detalhes e não é à toa que universidades criaram campos de estudos específicos de pós-graduação para atuarem no setor e empresas investem seu capital humano e recursos financeiros para tal.

E no Brasil, de tormentas desnecessárias, de demandas descabidas ou inventadas, de fuga de cérebros, músculos e, na ponta, de energia útil, de falta de horizonte planificável e desperdícios mil?  Não sabemos realmente o que nos falta para sermos uma verdadeira potência nos esportes e em tudo mais, com um litoral de milhares de quilômetros, rios caudalosos, geografia ímpar, conhecimento técnico/científico, milhões de brasileirinhos saltitantes, espaço de sobra, produção gigante de alimentos e marketing premiado pela competência mundo afora?

Repararam que não listei o governo?

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