Me engana que eu gosto?

Quem, afinal de contas, se sente bem fraudando a Receita, a Previdência ou o remédio contra impotência? 

O problema começa quando as 'inofensivas' ações se efetivam como prática

O problema começa quando as 'inofensivas' ações se efetivam como prática

Pixabay/Waldryano

Com que frequência o caro leitor tem encarado por aí manchetes de notícias com o termo ‘fraude’ ou sinônimos como tramoia, farsa, engano, falcatrua, trapaça, ou qualquer outra designação para lidar com a coisa errada e, mais acentuado ainda, com o crime?

Variadas são as palavras e também as áreas onde esse verdadeiro ‘modus operandi’ acontece.  E não pensemos somente nos adultos e seus desvios de conduta ou intenção criminal. Quando crianças, se não nós mesmos, muitos coleguinhas ou amiguinhos entre a tenra infância e a adolescência aprontaram alguma pequena travessura para contornar o legal, subtrair o que não o pertencia até então na mais pura traquinagem.

Outro dia lembrei, na qualidade de quase jovem, quando vi colocarem (sujeito indeterminado na Língua Portuguesa) uma ficha telefônica da Telesp feita de latinha que, dobrada e redobrada, servia para cair no cofre dos orelhões a fim de conseguir o sinal de linha. Desta mesma época, também me recordei de testemunhar chutes e socos nas até hoje existentes bolas de vidro cheias de guloseimas para que, mesmo sem a moeda, eram torturadas até entregarem o chiclete!

Tudo na mais perfeita descoberta quase espontânea, e de ‘pequena monta’, para mostrar pra turminha que o fulano era o cara, o bam bam bam, o que fazia e desfazia, o que levava vantagem pela capacidade de burlar o sistema ou destravar o mecanismo do telefone público e da tal bola de vidro.

O grande problema começa (sim, pois o pequeno já existe, ou não?) quando as ditas inofensivas ações que ilustravam uma passagem de vida se efetivam como prática e, pior ainda, quando dão certo, pois assim se torna natural pensar que funcionarão sem reveses pelo resto de nossas vidas.

Dessa maneira, fraudar o Fisco, o INSS, o Auxílio Emergencial, o Bolsa Família, o seguro do carro, a publicação de uma inexistente pesquisa científica e tudo mais passível de trapaça passa a ser o capital moral e de sucesso; o quadro fica mais colorido ainda quando associa-se o furto de combustível ou de água nos dutos enterrados (afinal, o que há de errado em furar um caninho de respeitável diâmetro e desviar dele alguns milhares de litros dentre bilhões que por ele passam, me digam?), a falsificação de dinheiro, de marca registrada ou de obra de arte. Ah é, tem mais: documentos públicos como escrituras rurais, documentos pessoais como Carteira de Identidade, medicação...até cartão de plástico para retirar carrinho de compras em condomínios!

E a praga do plágio, que serve de esteio ou enxerto em obras acadêmicas ou artísticas de escritores, cientistas ou artistas, que se multiplica até a contemporaneidade por mais que robôs e algoritmos estejam alertas e cada vez mais poderosos em suas buscas digitais atrás do delito.

Dos tempos em que a tecnologia ainda era a vapor, há relatos de que embarcações em precárias condições de navegabilidade foram propositalmente lançadas contra rochedos no litoral brasileiro entre o final do século 19 e começo do século 20 para que seguradoras cobrissem o ‘acidente’ e assim indenizassem seus donos. Alguma similaridade com automóveis que pegam fogo ‘do nada’ ou ‘se suicidam’ em precipícios?

Se pararmos para pensar um pouco, somos todos lesados quando vítimas da farsa. Quando não financeiramente pelo aumento do que se paga pelo risco de fraude no negócio, acabamos sentindo no tecido social que a falcatrua incrementa a criminalidade, a falta de saneamento básico e o acesso à terra para plantar e morar, sem falar na ereção.

Nada mal, não, para uma lista que infelizmente não acaba aqui.