Melhor entender do que sofrer com o resto de tudo

Tratar direito do que é lixo e demais resíduos limpa a mente e o ambiente  

Na ótica de quem se livra do lixo, o processo se finaliza após dar o nó no saco

Na ótica de quem se livra do lixo, o processo se finaliza após dar o nó no saco

Divulgação

A cena se repete nos pontos viciados (seria um fenômeno tipicamente latino, africano ou mundializado?)  em determinadas calçadas, ruas, avenidas, leitos de rios e margens de estradas asfaltadas ou de terra.

Mas antes de ‘entrar em cena’, o melhor a ver é o detalhe. A pequena quantidade de resto de alimento jogado no lixo doméstico é misturada, ainda em casa, a toda sorte de materiais despedaçados, amassados, recortados, rasgados, sujos, melecados ou triturados que juntos formam um bolo de coisas ‘inúteis’ que queremos tirar de perto da gente no menor tempo possível.

Na ótica de quem se livra desse resto de tudo, o processo magicamente se finaliza após dar o nó no saco ou fechar a tampa da lata e do container. Ou quase. Falta o principal, que é fazer desaparecer o que incomoda e, de preferência, fazer reaparecer na maior distância que se consiga...magicamente.

E quem reforma um imóvel então? Obviamente, quer se livrar do resíduo do material de construção. Entra na conta, invariavelmente, o descarte de utensílios domésticos, móveis e toda sorte de itens que não combinam mais com o novo e funcional visual que o lar adquiriu neta intervenção. Eletrodomésticos, vasos sanitários e armários moribundos são os campeões da lista a serem jogados fora...ok, colchões também...! Esqueci da ‘infra’; resto de massa, pedra, bloco, gesso, cano PVC, lata de tinta, de thinner, lixa, papelão (dos novos eletrodomésticos), pote de vidro, pano, saco (do cimento, lembra!?).

Acontece que no mundo real, a fantasia de ver transformar tudo isso em estrelinhas no céu ou no átomo invisível não se concretiza (desculpe o trocadilho). É bem mais complicado, científico e caro ver tudo isso voltar, de alguma forma, ao consumo. Mas vale cada centavo. A reciclagem foi moda e hoje é meio de vida aos que nela trabalham e, assim, transformam a paisagem, requalificam o ambiente e brecam um pouco a voracidade em cima da natureza.

Por que raios então, sabedores que somos dos benefícios envolvidos na coleta seletiva de lixo, na recirculação de bens materiais, no giro virtuoso das economias do capital e dos recursos naturais, entre outros, não fazemos, não cobramos ou não nos indignamos com rigor (a ponto de acionar autoridades e monitorar) quando vemos entulho nas calçadas e por vezes tomando faixa de veículo, ou o lixo amontoado, espalhado e prestes a ser engolido pela nada faminta mas apensas sedenta boca de lobo? Quem não conhece algum vizinho que cria esse pequeno caos ao redor, que já tenha contratado algum caçambeiro ‘milagreiro’ clandestino, o ‘cara da kombi’ ou da ‘caminhonete’ com a limpa finalidade de jogar aquele mesmo vaso sanitário no meio do mato, no córrego, no terreno sem muro?

Curioso mesmo é a nossa incapacidade de olhar o circuito completo das coisas com as quais lidamos todos os dias, anos a fio. Lembro como se fosse hoje da cena de uma vítima de inundação na zona sul de São Paulo, no verão de 2019, que foi flagrada por uma câmera jogando no rio Tamanduateí algo ‘de volta’ como se ele fosse o gerador daquele resíduo que adentrou à sua casa num temporal da estação. Em Minas Gerais foi um policial que deu o péssimo exemplo ao fazer a mesma coisa no início deste ano. Detalhe: para se livrar da barricada feita por moradores em protesto, ele se livrou do material jogando-o no rio! Tem vídeo na internet.

Do papel de bala jogado no chão aos pontos viciados de descarte irregular de lixo e entulho, será que um dia vamos entender o ciclo das coisas?