Normas e máquinas decidem nosso fim 

Seres de carne e cobre, nem tão ocultos assim, não nos esquecem, cortam nossa língua e, ‘desatentos’, podem ruir nossa pessoa física

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“Não é constitucional o direito ao esquecimento”, deliberou o Supremo Tribunal Federal há uns dias sobre a possibilidade de se retirar, dos meios de comunicação, material referente a um acontecimento com alguém cujo conteúdo lhe cause algum constrangimento, mesmo que o fato seja de comprovada veracidade. Liberdade de expressão e o direito às futuras gerações de se apropriarem do conhecimento histórico pautaram algumas decisões de ministros da Corte.

Pois bem, mais um capítulo segue sobre a ocupação, no espaço midiático, de temas relacionados aos direitos de cada um quando, passiva ou ativamente, se insere nesta embrenhada floresta digital baseada numa rede mundial de computadores.

Só que a coisa não para por aqui. Também, recentemente, uma sequência de bloqueios de contas pessoais em redes sociais interrompeu a publicação de conteúdo de seus titulares. Isso deflagrou uma onda enorme de reações, tanto pró como contra, direcionadas aos mandatários das bigtechs globais de plataformas poderosíssimas de comunicação social como o Face e o Twitter, para ficarmos nestes dois exemplos. O ex-presidente norte americano e blogueiros, dentre anônimos e celebridades, foram alvos dessas operações de bloqueios, temporários ou definitivos.

Para piorar o cenário intrincado e hiperconectável que emoldura as relações interpessoais nas redes sociais e de poder que cada um pensa ter diante do imensurável aparato computacional - que enche os bolsos de poucos com muitos bilhões de dólares -, temos o vazamento de dados. Acontecido em etapas nas últimas semanas no nosso país, criou uma fobia natural na sociedade que, a partir de sua abrangência nunca antes experimentada, nos faz desligar o telefonema na cara da pessoa quando ela liga nos oferecendo um upgrade no pacote da assinatura de serviços de fonia fixo ou móvel.

Não se trata de apenas recusar por recusar um eventual blá blá blá. O medo é generalizado e, exagerado ou não, faz sentido numa terra de pouca fiscalização, quase nenhuma impunidade e uma Autoridade Nacional de Proteção de Dados responsável pela privacidade e gestão de dados ainda devendo uma reação mais altiva e efetiva, principalmente quando sabemos de negociações, em dólar, de pacotes de dados com CPFs e toda uma cadeia de informações sensíveis vagando nas catacumbas da internet, providas por criminosos que compram e vendem informações pessoais para chantagens, violações e crimes contra patrimônio, sem estender muito aqui para não assustar mais os tiozinhos da web como este que tecla.

A discussão diante destas três esferas de relacionamento nas quais são tratadas, gravadas, apagadas, vazadas e bloqueadas as formas como trocamos figurinha com o mundo é sobre o quanto nossas vidas estão a mercê dos outros sem que saibamos direito quem nos assenhora.  Dentro disso trafegam nossos direitos à comunicação, que são também manuseados ao sabor das ‘políticas de uso’ das ferramentas tecnológicas. Em paralelo a isso, o dever de instituições, públicas ou privadas, de resguardarem nossos mais preciosos dados que, em mãos criminosas, são usados para nos causar gigantescos prejuízos financeiros e dissabores a serem geridos por tempo indeterminado.

E porque, diante disso tudo, continuamos teclando? Fácil de responder quando se trata de um animal social como o ser humano. Difícil mesmo é olhar o quanto somos zeros e uns dentro de uma engrenagem que só cresce, se automatiza e se multiplica quase que por si mesma, não adoece como a gente mas seu ‘DNA’ está tresloucado, trabalha o tempo todo, consome terawatts em meio ao silício para se manter e sobrevive em ‘forma’ de ‘nuvem’, esplêndida e impenetrável.

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