Coronavírus

Eduardo Olimpio O afeto, as perdas e ganhos, os trancos e barrancos 

O afeto, as perdas e ganhos, os trancos e barrancos 

Desde março de 2020 estamos despedaçados, mas sobrevivemos sem saber, contudo, como de fato sentiremos o novo mundo

Volta às aulas com distanciamento

Volta às aulas com distanciamento

Stephane Mahe / Reuters - 12.5.2020

Chegou fevereiro, mês do carnaval, do início das aulas, do retorno das férias daqueles que conseguiam se organizar para tanto e do momento de recomeçar o ano com força total.

Mas que diabos estamos falando? Que imagem é esta que está sendo descrita longe da atualidade, da realidade imposta pelos tempos vividos? De que trata esta narrativa apartada da nova normalidade?

Parece distante demais da nossa realidade - e aceitação - a sensação de que as coisas atualmente andam se reencaminhando por outras vias que não as tradicionalmente percorridas até março de 2020. Todos nós sabemos, passado quase um ano da ordem para ficarmos em casa, o quanto foi e ainda está sendo difícil driblar uma das características que nos situam na modalidade humana como a convivência social, por exemplo, a mesma que nos socializa, nos coletiviza, nos individualiza, nos fortalece como espécie, nos faz mais inteligentes e sensíveis e, paradoxalmente, nos barbariza.

Mesmo que enfatizemos a questão da tecnologia da comunicação digital que ‘atenua’ o isolamento e não permite, até certo ponto, que nos desumanizemos com relação aos termos postos anteriormente, temos que forçosamente pensar nas variantes, quando não maiorias, que não têm o acesso a este ‘ópio’ que minimiza a dor e os prejuízos da separação dos amores, naturais e necessários, de cada um de nós.

No campo da Educação, principalmente a Infantil e a Fundamental, quem vai reparar os danos, mensuráveis por pesquisas, causados não só no processo de aprendizagem dos conteúdos do ano letivo mas, e sobretudo, no campo do afeto?

Vejamos. No ano passado a professora do meu filho no então 3º ano do Ensino Fundamental, que hoje voltou à aula presencial no 4º ano, não o abraçou desde março, não o acolheu desde março, não chamou a atenção dele desde março, não ouviu ecoar pela sala de aula sua voz fina e graciosa desde março, não riu dele e com ele desde março. Assim como não pegou seu caderno de matemática nas mãos, não folheou o de língua portuguesa e também não abriu e não deixou a tinta de sua esferográfica na agenda dele. E ele, no entanto, é um privilegiado.

Que mundo é este? Especialistas dizem que lacunas ficarão, não se sabe se pra sempre, na existência dele, dela, de todos que tiveram que abrir mão de suas convivências, e dentro delas de seus beijos, abraços, apertos de mãos, audições de vozes presenciais e da percepção de quanto as crianças de uma sala de aula crescem nesta faixa, perdem roupas e calçados, trocam umas com as outras sonhos, novos vocábulos e ‘beyblades metal fusion’ que trocam de morada entre mochilas e estojos.

Ao final, muitos não aguentarão mais afastamentos sociais. Muitos já jogaram a toalha da sanidade. Muitos sairão, de alguma forma, ilesos deste período apocalíptico. Muitos se tornarão mais fortes, mais fracos, mais ansiosos, mais seguros, mais racionais, mais delirantes, mais medicados/drogados, mais ‘limpos’.

Tudo é muito para a nossa cabeça.

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