O cálculo das probabilidades

A chance de ser influenciado(a) de forma positiva ou negativa varia de acordo com sua capacidade ou não de alienação diante das redes sociais 

Há espaço para todo mundo influenciar alguém nas redes sociais?

Há espaço para todo mundo influenciar alguém nas redes sociais?

Tracy Le Blanc/Pexels

Há um tipo de ‘ensinamento’ que frequenta rodas de conversas muito comum de se ouvir quando o papo gira em torno ‘do que somos’ na vida. Claro que esse assunto se desdobra em mil leituras diferentes e, a cada caso que se escuta (dos outros, digo), logo nossa máquina de triturar gente entra em ação para julgar as condutas alheias.

E quando juntamos temas que fazem vibrar o imaginário médio como o feminino e o papel das meninas nas mais variadas facetas sociais, aí então quando não sai algo razoável pelas vias do entendimento de uma conversa, pode apostar que preconceitos, miopias e toda uma cadeia de bobagens racionais e de agressão física delimitam o espaço que deveria ser lúdico e de aprendizado das partes. E lembrem-se de que estou a falar de um lugar chamado diálogo, hein!

O mundo está maluco, como bem sabemos, mas tem pessoas que levam às raias da loucura atos e pensamentos em nome de algum objetivo que, quando vamos averiguar, temos alguma dificuldade em entender sua finalidade. Isso não nos afasta de estranhar ou mesmo repudiar os meios pelos quais tal meta despertou no autor ou autora. O que não dá é achar que o agir de cada mulher em busca de seu quadrado no mundo deve se pautar pelo desvio moral, e não discuto aqui a sexualidade, papo clichê na moralidade. Em relação a ela, cada um na sua, com suas crenças, práticas, (des)pudores, causas e consequências. Pois é, não estou aqui para tornar pública minha visão das condutas sexuais das moças, mesmo tendo opinião sobre.

Aos fatos, então. Há menos de um mês, assistindo ao noticiário televisivo, vi uma reportagem. Não vou pormenorizar aqui a tal matéria porque não é esse o objeto desta reflexão. Resumidamente uma garota postou nas redes sociais dela que, após a saída de uma festa, tomou um transporte por aplicativo e, quando deu por si, estava com as roupas rasgadas, sangrando na boca. Chorando e perdida, acabou por conseguir chegar até um hospital e, de lá, continuou a postar para sua audiência o que estava passando, angústias, dores, tudo. Chamada, a Polícia inicia rapidamente uma investigação nas ruas na tentativa de achar o suposto criminoso, pois tudo indicava um estupro, provavelmente por um homem de cabelos grisalhos e, provavelmente, o motorista do app como encaixe na narrativa.

Polícia e equipe médica mobilizadas, as primeiras diligências na cidade do interior mineiro dão em nada. Desconfiados, experientes e preparados, policiais resolveram tomar novamente o depoimento da jovem e, dela, sacaram a verdade dos fatos logo após terem sido informados também que, no exame médico, nada havia sido constatado de lesivo ao órgão genital da garota. Ela tinha inventado tudo para, segundo apurou a reportagem, ganhar seguidores virtuais na sua doce (e provavelmente amarga também) vida em nuvem. Crime em cima de um inexistente crime, pois simulou tudo e fez um falso comunicado às autoridades de algo que não aconteceu. Questionada, disse que resolveu imitar uma amiga influenciadora digital que passara por um acidente de carro – este sim verdadeiro, ao que parece - e que, após ter publicado na rede o que aconteceu, automaticamente angariou a solidariedade de muitos e alguma elasticidade nos números de views. Confessou até que o sangue na boca nada mais era do que uma gengivite.

Passadas 2, 3 semanas deste episódio que acompanhei, li nos jornais que duas mulheres, uma brasileira e outra italiana, foram homenageadas e premiadas por suas pesquisas e trabalhos científicos vinculadas ao Instituto de Matemática Pura e Aplicada e, assim, elevaram internacionalmente não só a ciência feita no Brasil como mostraram seu valor real pelo suor de sua caminhada, esforço dentro de um país que carrega nas costas uma sociedade segregacionista e polarizada ao masculino.

O que está de errado e de certo nessa história toda? Quem deveria ser influenciadora digital? Há espaço para todo mundo influenciar alguém nas redes sociais? A falsa estuprada teria alguma afinidade com a matemática laureada com a premiação?

Não, infelizmente não tem. Uma pena que os caminhos delas não tenham dado match no emaranhado da internet. Uma vai responder na Justiça pela denúncia de falso crime. Outra vai abrir uma nova frente de influência para que tantas outras mulheres a sigam pelo caminho do estudo e da natural e boa consequência que essa opção acarreta.

A internet pode te elevar ou derrubar. Vai depender sempre da sequência de teclas que você escolhe digitar.

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