O despertar de um calvário pela covid

Tempos de tosses, mais álcool em gel e spray, vida de cárcere olhando pela janela e torcendo pela conservação da boa saturação do oxigênio

Tudo começou quando deixei para trás o laboratório de análises clínicas e rumei para casa à espera, não necessariamente de um milagre, mas de que algo não se tornasse real.

Mas que tudo é esse? É a sensação de que não controlamos a vida na sua totalidade de possibilidades, mesmo as supostas controláveis. Aliás, uma coisa absolutamente normal saber disso e que essa verdade particularizada está inserida no nosso caminho diário rumo ao amanhã. De novo, se não for essa a única certeza para entender que, por mais controles que possamos desenvolver ou simplesmente dispor, algo sempre não estará ao alcance das mãos, um novo aprendizado está a caminho. Provavelmente, reanalisar a vida que passa ao largo da ponta da unha.

Mais tarde, já nos aposentos reais, fiquei nesse exercício louco de tentar não pensar nas obviedades. Entre as absolutas estavam a família, com mãe, irmãos, filho e mulher. E nas quase 20 milhões de famílias com alguém infectado. E nos mais de 550 mil clãs que sentem a morte de seus parentes. E nos que não tem por onde correr ou se isolar.

Nova rotina: cruzada desértica e cativeiro forçoso

Nova rotina: cruzada desértica e cativeiro forçoso

Reprodução/ Pixabay

Como dizer para quem me fez nascer que estou alojando no meu aparelho respiratório um ser que pode me fazer morrer? Se não vai me matar, pode me sequelar ou até viver latente também nas lembranças? E para a companheira, que corre o risco de ficar ‘viúva’ antes mesmo de colocarmos em prática o resto dos sonhos conjuntos que foram realizados apenas em parte? E quanto ao herdeiro, a sentir no ainda pequeno coração uma dor difícil de entender que representaria, para o resto da vida dele, a ausência de toda uma construção representativa que um pai preenche, de bom e de ruim?

Entre o morrer de um dia e nascer do outro, com a certeza dita aos quatro ventos gélidos que entravam pelas janelas do pequeno quarto de que, sim, estava ‘premiado’ pelo vírus da atualidade, passaram-se horas e horas olhando para um nada, ocupado por imagens da Olimpíada e telejornais interessantes, mas naqueles momentos sem muito sentido prático de reflexão acerca dos bafos presidenciais, medalhas redondas reluzentes e reinauguração de um imperdível museu vivo, morada hipertextual da língua portuguesa

Deitado sobre a cama, vendo-se involuntariamente culpado por estabelecer uma nova rotina de uma casa inteira, com medo de contaminar os que ama, sem sentir cheiro de nada nem o sabor das iguarias recheadas e temperadas com o amor – este sim, cheiroso e gostoso -, está um homem adulto, razoavelmente privilegiado e resolvido com as agruras da vida, segurando um descontrole remoto numa mão e, na outra, um lenço de papel. Angustiado, tenta em vão costurar mentalmente os fiapos da vida que teimam em ser e permanecer desfiados para, penso eu, nos mostrar os vários caminhos que se cruzaram e descruzaram no embaralhamento das soluções tardias para as coisas já idas e as que ainda estão por acontecer.

Ao final, o pobre homem que se esperará sair dessa cruzada desértica, se tudo correr como um roteiro de filme romântico depois da sessão de terror, terá tido um final feliz para seu enredo descontrolado. Terminará as centenas de horas cumpridas num forçoso cativeiro mais magro, um pouco mais sabedor de si e dos outros, o cabelo um tanto desgrenhado, espero sem cansaço físico (o mental já está aceito) e louco para abraçar e beijar os primeiros que encontrar no corredor que, pensa ele, ainda existir entre seu ‘lar’ de poucos metros quadrados e o ‘living room’ onde, de fato, se vive a vida em família.

E, se vivo estiver, saberá reconhecer que ainda é um cara razoavelmente privilegiado.

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