O fogaréu abastecido pelos fatos

Queimadas e incêndios acompanham a humanidade, e tecnologia de hoje sinaliza quem é quem no aquecimento do caldeirão

Labaredas correndo capim seco são comuns da Califórnia ao Mato Grosso

Labaredas correndo capim seco são comuns da Califórnia ao Mato Grosso

Amanda Perobelli/Reuters - 03.09.2020

Um dia, um momento lá trás na história da humanidade, alguns de nossos ancestrais, diz a ciência, testemunharam o surgimento do fogo que, literalmente, ‘caia dos céus’. Provavelmente foram raios que, nas tempestades, tocaram árvores ou vegetações primitivas sob condições especiais de secura e ocorrência, e geraram focos de incêndio. Assim, devem ter maravilhado aqueles seres humanos e os amedrontado com a mesma intensidade. Com certeza foi realmente fascinante alguma ignorância nativa ter visto, pela primeira vez, um fenômeno desses acontecer diante dos olhos sem nada no passado para basear uma explicação. Luz intensa, calor forte, cores vivas, um ‘treco’ que se movimenta, gera um ruído característico quando em ação. Não à toa, literalmente iluminou a imaginação ancestral.

Tempos depois desse espetáculo natural e incontrolável até então, por certo os antepassados se perguntaram se aquele ‘troço’ poderia ser recriado por suas próprias mãos, uma vez que sentiram, após vencerem o medo e se aproximarem desses pontos de ocorrência, a potente claridade que imanava do fogo e iluminava ao redor, bem como o calor irradiado. Isso agradou muito a quem vestia-se de peles de animais abatidos ou naturalmente falecidos, que invariavelmente cederam-lhes suas carnes, vísceras, ossos e couro para satisfazer a fome, cavar/raspar as superfícies, macerar folhas e proteger o corpo do frio

Passado esse longo período, e dominada a técnica de obtenção do fogo por atrito entre pedras e paus e de sua manutenção com uso de óleos e resinas, chegamos até hoje com este fenômeno revolucionário, que mudou nossa forma de ser e de permanecer por aqui na calota terrestre. Tanto é que a chama é largamente usada, dentre inúmeras frentes de utilidade, na agricultura, que dela se serve para ‘renovar’ áreas plantáveis nas chamadas queimadas.

E o cenário que atualmente testemunhamos, dentro e fora da atividade rural, é de grandes áreas do solo pegando fogo, quer pela inesgotável ação da natureza intempestiva, quer pelo acendimento de um palito de fósforo por dedos de uma mão humana, os mesmos que dispensam bitucas de cigarro ou respondem cegamente a mentes destruidoras conhecidas por piromaníacas (ou criminosas mesmo). Cenas de labaredas correndo capim seco, árvores se retorcendo ao sabor das calorias, animais calcinados ou severamente machucados pelo contato com o fogo são comuns da Austrália à Malásia, da Califórnia ao Amazonas e Mato Grosso.

Com a tecnologia de gerenciamento de dados coletados por satélites, sondas, torres de avistamento e toda uma parafernália científica, fica muito claro que estamos, sim, vivenciando um certo descontrole quanto às áreas incendiadas que mutilam fauna e flora. Seja para manejo de lavoura ou desmatamento explícito visando ganho de hectares para exploração, primeiro da madeira e depois do gado, o fato é uma abundância de focos que até põem em alto risco aglomerados urbanos pela poluição do ar, vilarejos, moradias rurais etc.

Como tudo na vida, outros lados e atores dessa questão existem, como a presença ou ausência de políticos e de políticas públicas de controle, combate ou até de incentivo à destruição. Também há a imprensa, que para além da reportagem responsável que vai saber de todos os lados possíveis, tem lá um segmento com interesses desfocados da verdade. Há ainda a comunidade científica e seus campos gravitacionais de influência. Não nos esqueçamos dos dados, que se tratados com responsabilidade não mentem. Por exemplo, se em um período de 8 horas um foco de incêndio é ‘varrido’ por 5 satélites que estão na linha deste fogo, não há 5 focos, mesmo cada um fazendo sua medição. Isso é mais sério do que se imagina na contabilidade e presunção de culpados.

Pra terminar, em levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) com base em informações de satélites da Nasa revelou, nos 7 primeiros meses de 2020, aumento de 44% nas queimadas na América do Sul, em relação ao mesmo período de 2019, com destaque para a Argentina (286%), Uruguai (177%) e Paraguai (129%). No Brasil, as queimadas cresceram ‘apenas’ 4%, segundo o estudo.

Ou seja, permeando a informação e peneirando maniqueísmos, temos que ser mais vigilantes que as próprias máquinas voadoras e suas reveladoras medições.

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