Caso Henry

O humano e o desumano

Na mesma plataforma em que abrigamos o amor e o bem estão pendurados os podres que também nos caracterizam como gente

O pequeno Henry tinha apenas 4 anos de idade

O pequeno Henry tinha apenas 4 anos de idade

Reprodução/ Record TV

Quando decidi escrever um pouco sobre o escabroso assassinato do pequeno Henry, de apenas 4 anos de vida, ocorrido no dia 8 de março agora, junto disse a mim mesmo que seria algo breve por conta da dor. E ninguém, absolutamente ninguém, ao ‘cair da cama’ apresenta a profundidade e o alto número de lesões no corpo atestado por uma equipe de peritos, portanto, a partir do laudo e investigações em curso, dá para afirmar que foi um assassinato.

E assim pretendo que seja, uma espécie de desabafo curto e breve que envolve uma ocorrência por si só horrível e pautada, naturalmente, com largo interesse pela imprensa em geral. No entanto, nada mais humano do que um assassinato, e a história do Homem perde-se em números com ações em que iguais se cruzam e um deles tem a morte, naquele momento, decidida pelo outro.

Não, não assino embaixo, da forma que for, do ato de um adulto que espanca uma criança indefesa e a leva a morte ou a viver com sequelas físicas e emocionais cravadas em sua carne e existência. Não há aqui o que se debater sobre legítima defesa, forte emoção, momento agudo, possessões ou algo que o valha. Nada justifica, nada ajuda a explicar o inominável.

Também não é e nem nunca será no caso do garoto carioca morto, repito, aos 4 anos de idade, assim como nunca fora em outros incontáveis assassinatos de mesma envergadura acontecidos no Brasil e no restante dos países. Eu digo, sem precisar pesquisar, que isso acontece em todas as nações independente da intensidade (o fenômeno não se atenua ou anula-se por mais ou menos pancadas que se dê numa criança). Aqui, no Japão, no Canadá, em Bangladesh, nas Maldivas, no Turcomenistão, na Arábia Saudita, na Suécia, na África do Sul, em infindáveis latitudes e longitudes, agora em que lês estas palavras, alguma criança está sendo barbaramente violentada.

No Brasil, casos recentes chocaram, e com toda a razão, a opinião pública. É um tal de arremessar criança pela janela, esfaquear, sufocar, espancar, estuprar, queimar, furar, alvejar, quebrar, sangrar, enfim, que nossa feição se contorce e o coração acelera quando chegam novas notícias sobre um velho ‘hábito’, de novo, humano.

Tenho um filho de 8 anos e a avó dele, a cada notícia sobre o Henry, solta o verbo em meus ouvidos que dão a cara e o tamanho do desespero dela em, nas palavras ditas, nem sonhar em ver alguém fazer isso com um neto dela. Ela sofre demais com as narrativas televisivas sobre o caso e vem compartilhar comigo essa dor, aquela mesma dor descrita por mim lá no comecinho, e que não passa. Não passa porque é tão humana quanto a perversão, a calhordice, a falta de empatia que se alojam do outro lado da moeda.

Humanos, uni-vos no amor, na proteção da infância e em algum marco civilizatório, porque na dor e na violência somos siameses sem opção, e de bastardos já basta.

Estendi mais do que pretendia. Aqui encerro, confessando que ver o pai do menino sem o menino dele continua a me corroer.

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