O presente no passado, ou vice-versa

Há alguma ironia em incorporarmos velhas coisas numa atualidade de certezas que também serão um dia resgatáveis 

Grupo paulista Serenata & Cia

Grupo paulista Serenata & Cia

Fredi Jon

Quem diria que, em pleno esplendor do ainda jovem século 21, estaríamos convivendo com a mais alta tecnologia em infinitos modos de estar e fazer, e comportamentos humanos mais liberais em paralelo, com práticas, serviços e dispositivos considerados arcaicos, fora de moda e ultrapassados?

A atual pandemia e o consequente isolamento e óbitos que a fazem odiada mundo afora, de alguma forma aprofundou, acelerou ou mesmo suscitou retomadas que estão sendo (re)incorporadas ao balaio social com o qual trocamos nossas impressões. Assim, voltamos coletivamente a exercer a empatia e a solidariedade, virtudes que a sociedade vinha deixando cada vez mais de lado. Distante disso, outro aspecto sociocomportamental a ser curiosamente atestado é a boa audiência de novelas que passaram a ser reexibidas, assim como jogos de futebol do passado.

Tudo faz parte de uma sensação que podemos observar também quando vemos ressurgirem espaços onde automóveis miram seus para-brisas para uma tela gigante a fim de que seus ocupantes possam assistir a um filme de dentro deles.

Mas há o outro lado da moeda. O Brasil viu de perto, em 2019, um aumento significativo de famílias que aboliram de suas rotinas o uso do bom e velho botijão de gás e passaram a usar o fogão a lenha, fato desdobrado principalmente nas franjas periféricas de cidades de todos os portes e nas regiões norte e nordeste. O vilão do período não foi um vírus e sim um duplo problema formado pela alta do preço do Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) e o aumento brusco do desemprego.

Listam ainda as retomadas dos Long Plays (LP´s / vinis) e respectivos tocadores (vitrolas), as confecções de massas caseiras com fermentação natural, as roupas e acessórios (essas nem contam porque a moda vai e vem) e, podem acreditar, ainda há escolas das redes públicas de ensino espalhadas Brasil afora que usam o mimeógrafo (vale um google aos leitores mais novinhos) para fazerem suas cópias de provas etc!

No entanto, tem um segmento focado na preservação da cultura que embala lirismo e nunca se perdeu no tempo. A serenata é daquelas atrações que fogem ao cotidiano da imensa maioria da sociedade mas, quando acontece, é capaz de provocar reações que podem levar a seguinte questão: ainda há espaço numa conturbada metrópole estruturada física e tecnologicamente para este tipo de, digamos, evento ‘das antigas’?

Grupo inovou e realiza serenatas virtuais

Grupo inovou e realiza serenatas virtuais

Cibele Costa

A resposta é dada pelos 20 anos de atividade ininterrupta de um dos grupos paulistas que atuam no setor de entretenimento ‘vintage’. O Serenata & Cia, por exemplo, acaba de se reinventar e, somando às tradicionais homenagens presenciais feitas a empresas, pessoas (vivas ou falecidas) etc, incorporou de vez ao seu repertório de serviços as serenatas nas múltiplas plataformas como Facebook, YouTube, Instagram e WhatsApp, que ao vivo transmitem as emoções de quem homenageia como a do homenageado.

Além dessa novidade do século 21, voltou ao cardápio a icônica cena do começo do século passado com músicas presenciais – com 1 metro e meio de distância - nas marquises de janelas, falando de amor e tudo mais, cantadas nas calçadas e nos condomínios, com amplificador, vestimentas à caráter, voz e violão. 

Tudo ao vivíssimo e atual, como antigamente.

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