O tempo que narra o que o tempo fez

A vida não para, mas é preciso alguma métrica para sabermos onde e quando encontramos as coisas da nossa existência

'Não se trata de uma triste análise do tempo da vida'

'Não se trata de uma triste análise do tempo da vida'

Luizmedeirosph/Pexels

Até sei. Vou abrir a semana arrumando briga desnecessária. Se há algo bom no envelhecimento (vão questionar se isso é um exercício de devaneio, um deboche raso ou uma tentativa séria de achar virtudes enquanto o corpo segue à falência), esse deve se caracterizar, dentre outras coisas, pelo surgimento de rugas (brincadeira, apesar de algumas pessoas assim pensarem, e sabe-se lá se podem estar certas!), pela gratuidade em transportes públicos - e a rara empatia dos mais jovens em ceder seus assentos -, por um ‘ganho’ social como a fila exclusiva e uma maior maturidade.

Diante dessas possibilidades de benefícios, a natureza humana apresenta coincidências contraditórias (ou paradoxos) que mexem com o imaginário leigo de quem não domina as ciências biológicas. A tal glândula pineal, presente em nós e responsável pelo hormônio do bem-estar e equilíbrio psicoemocional, começa a dar sinais de cansaço por volta dos 25 anos em diante. E é mais ou menos nesta faixa de idade que iniciamos o que chamo de plenitude da biografia. 

Munido dessa hipótese, dá para traçar algumas especulações acerca de como lidamos com aspectos da memória que já construímos até este marco do tempo, por exemplo. Tenho uma teoria de que a vida tem a chave de ignição virada para dar a partida no motor nesta idade, pois quando olhamos para trás e vemos se há registros que valem ser resgatados como conjunto de experiências, eles aparecem mais robustos a partir dos 15 anos. Portanto, já temos uma década de presença que vale ser reverenciada, coincidindo justamente com o início do pico da adolescência ao término tardio desta.

É nesta fase que passamos a viver de fato o que podemos afirmar como nossa vida, com os saberes pertinentes ao período e uma lucidez que ecoa muito as dimensões do vivido, diferente das lembranças do início da puberdade ou mesmo da infância, que guardamos de modo diferente, mesmo que também carregadas de emoções. E tem um plus nisso, que é um corpo também em grande forma ajudando a fazer a nossa história acontecer.

Em torno dos 25 anos começamos a ter um repertório ‘respeitável’, pois já nos iniciamos nas desventuras de amores, de relações sexuais, de viagens, de trabalhos, de cursos feitos, de buscas espirituais, de ‘papos cabeças’ à mesa de um bar, de filmes, de músicas, de operações bancárias, de dores e delícias de pessoas, ocorrências e tudo mais que nos impressiona de alguma forma. Ou seja, como disse antes, é como se a história pessoal de cada um começasse a ser impressa a partir deste primeiro quarto de século.

Para muitos, é o momento em que se inicia a construção de uma maturidade que vai se consolidando à medida que camadas de vivências vão se depositando uma em cima da outra, sem anular as anteriores e sim usando-as como esteio de uma nova murada a construir. Também estreia um favorecimento maior ao equilíbrio dos fatos da vida, com tendência a pôr o pensamento, a consciência e uma razão à frente das emoções puras e baratas.

O engraçado é que ao acumular mais uma, duas, três décadas a frente, se pararmos para pensar, na média estamos no meio da curva da existência, e ao olharmos para o futuro, este automaticamente se encurta, e o passado alonga-se a ponto de quase se perder de vista.

Não se trata de uma triste análise do tempo da vida. Apenas um traço de nossa trajetória que precisa, às vezes, ser encarada para que dela possamos extrair o que nos ampara e dá sentido ao ato de respirar. E que seja nem curta nem longa, mas apenas aconteça.

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