O verbo como princípio e fim em si mesmo

Aparecer nas redes sociais e nos portais de notícias é, antes de tudo, uma atividade, mesmo que passiva

Redes sociais

Redes sociais

Pixabay

Dentre as infinitas notícias sobre tudo o que acontece (e pode ser testemunhado) com as pessoas, com as coisas da natureza, das camadas mais altas da atmosfera, das catacumbas da terra ou das fossas abissais oceânicas, uma parte delas dá conta da vida das chamadas celebridades.

Entendemos por celebridades seres que têm alguma qualidade ilustre, uma notabilidade pelos atos ou palavras, ou possuem pura fama por suas características físicas que lhe emprestam vantagens públicas ou privadas. Também, por extensão, podemos vê-las como pessoas extravagantes ou extraordinárias em algum quesito que signifique algo para alguém. O repertório dicionarizado do termo, é certo, se mostra maior.

O xis da questão não está, contudo, na forma como quem não é célebre enxerga, segue ou, na decepção, até cancela um destes. Isso faz parte do que costumo chamar de atribuição, ou seja, o que pode ser enfático ou importante para mim com a finalidade de salvaguardar a reputação de um ídolo não necessariamente preencherá os quadradinhos de opções de outro, e assim o inverso também se dá. O que pode impactar a vida de um fã de alguém, de quem eu nunca ouvira sequer falar, por exemplo, é essa perigosa empatia que rola quando um idólatra atribui para si a importância da vida de seu ícone deixando a sua própria de lado.

Digo isso porque relevar as facetas de determinadas personagens e fazê-las mitos começou de forma mais avassaladora na primeira metade do século 20 com a poderosa indústria norte americana de cinema. Financiada em larga escala pelos estúdios, a imprensa construiu e esculpiu detalhadamente celebridades para serem formadores de opinião e de ‘estilo de vida’, mesmo que para isso Hollywood assistisse nos bastidores mortes lentas e dolorosas de seus deuses reais, que não suportaram tamanha devassidão de suas vidas. O que importava era vender magazines, revistas de fofocas e afins.

Fora da bolha cinematográfica e com a contundente e atual tecnologia de comunicação em rede, a imprensa especializada nesta cobertura de celebridades tem se virado nos trinta para chamar a atenção com seus enfoques e mesas redondas, disputando espaço da atenção dos receptores com as próprias redes sociais delas (muitas assessoradas profissionalmente), suas selfies de caras, de bocas de biquínis, de piscinas, de varandas de praias, de espreguiçadeiras ou ao lado de garanhões e gatos, de quatro ou duas patas.

Nesse mundaréu de infos e fotos, qual não foi minha surpresa - hoje não mais - em começar a reparar nas homes de portais de notícias um verbo quase onipresente nas chamadas de capa, manchetes das editorias pertinentes ou notinhas. Tal palavra está e estava com presença quase imaculada a dizer o que as celebridades faziam no momento reportado. E o que fazem e faziam elas? Postagens. “Fulana posta foto com fio dental em rede social e recebe críticas de seguidores”. “De férias, Beltrano posta selfie com filha em ilha paradisíaca do Pacífico”. “Postagem de Sicrana causa furor em rede social por mostrar barriga negativa”.

O verbo ‘postar’ entrou de vez no campo de visão dos internautas. E aqui não estou a julgar necessidades, enfoques, o imperialismo das ‘hardnews’ em detrimento a outras já que o espaço para qualquer tipo de informação na ‘nuvem’ pode tender ao infinito quando comparado aos quadrantes das folhas de papel-jornal, das revistas e afins. Também aqui não sou juiz ou editor para escalonar grau de relevância entre notícias A ou B.

Só fico pensando nos títulos. Acho que caíram numa armadilha linguística da qual quase nunca escapam numa espécie de ‘camisa de força’ ou clichê sem a qual os leitores não se fixariam, pois experimentaram e gostaram do tempero do termo. De fato, faz sentido lógico e eu, que leio de obituário a protozoário, preciso me refazer, me desvencilhar de amarras inúteis para enxergar alguma atividade neste verbo de ação. Afinal, celebridades agem quando postam.

Últimas