Os Estados Unidos em defesa do estado de guerra

Bilhões de dólares para derrubar desafetos, ocupar lugares de riquezas e toda sorte de interesses movem a máquina mortífera norte-americana

“A guerra é um massacre entre pessoas que não se conhecem para proveito de pessoas que se conhecem mas não se massacram”. Com essa máxima, Paul Valéry disse tudo. Ou quase.

Da minha parte, infinitamente menor do que o genial poeta simbolista francês que viveu entre os séculos 19 e 20, acho que a receita para uma boa peleja é essa mesma, recheada de idas e vindas entre lados que, a história mostra, muitas vezes andaram na mesma trilha e direção de objetivos sem necessariamente se amarem num passado qualquer. E não há nada a se estranhar quando se percebe que, de uma hora para outra, os tais ‘lados’ declararam-se inimigos, abrindo a temporada de caça e extermínio humano com objetivos abjetos e, também não raros, atirando pelos canos de variados calibres a nova verdade de cada um.

O que revela também esta frase é a hipocrisia que permeia as relações dos antigos ‘sócios’ no que diz respeito aos, de novo, desejos da época do namoro, quando a paixão os movia mesmo sem aglutinar seus mundos e interesses particulares; só sobrava um pouco em comum para uma união, ainda que instável.  Se mirarmos bem nos olhos da história, nessa relação de fachada, seus tempos e estruturas mostraram, esperta e oportunamente, que essa pulsão era temporária como ‘associados’; terminaria assim que os planos em comum vingassem e seguiriam, cada um, a bordo de seus tanques sobre lagartas.

Tropas americanas no aeroporto de Cabul, Afeganistão

Tropas americanas no aeroporto de Cabul, Afeganistão

Marinha dos EUA / Divulgação via Reuters - 28.8.2021

Só que este mesmo enredo não acaba aparentemente tão bem assim. Derrotados e vitoriosos contam suas versões aos receptores da ocorrência sanguinária na qual fuzilam a verdade e sobram relatos heroicos de mocinhos e bandidos. A experiência mostra que os vitoriosos sempre serão os que livraram seu povo dos bandidos vilões e a história costuma cravar como narrativa única a ser aceita aquela ouvida da boca dos vencedores.

Mesmo derrotados e humilhados no longínquo Vietnã em 1973, os Estados Unidos, vitoriosos na 2ª Guerra Mundial, acharam que com o poderio bélico superior e tropas bem treinadas dariam conta dos vietcongues. Mutilados e mortos, norte-americanos sentiram o peso das selvas e a resistência de uma massa unida de combatentes resistentes e conhecedores da geografia e ciclos da natureza. E de novo o país mancha sua biografia ao sair do Afeganistão cerca de meio século depois de deixarem os campos de arroz vietnamitas e 20 anos após invadirem Cabul, ficando por lá 2 décadas na tentativa de sufocar os inimigos terroristas que derrubaram as torres gêmeas em Nova York em 11 de setembro de 2001.

Antes, foi assim com a guerra entre Irã e Iraque, nos anos 1980, quando a Casa Branca, de um lado, alimentava os iranianos (então ‘aliados’) com venda ilegal de armas a eles e, com esse dinheiro, literalmente do outro lado financiava na Nicarágua os terroristas para enfrentarem a Frente Sandinista de Libertação Nacional, que mandava no país de forma contrária aos interesses do Tio Sam. Para completar o raciocínio (no entanto, sem fechar a contagem de episódios onde os norte-americanos se envolveram), ajudaram muito o Talibã, ainda no Paquistão, a tocar o terror para enfrentar as tropas soviéticas durante uma década de invasão da União Soviética ao Afeganistão, entre 1979 e 1989. Nem tudo foi simples assim e aconselho a mergulharem mais nos relatos e livros para sentirem a temperatura que sobe à medida das metas em jogo.

A construção de uma guerra entre humanos e seus distintos agrupamentos, acampamentos, tribos, pelotões, o que for, é remota no tempo e sempre foi uma iniciativa midiática, antes de tudo. Travava-se uma guerrinha para manter vivos ideais, bandeiras, rituais e nacos de terra. No detalhe, estavam no tabuleiro escravidão e aniquilação da cultura alheia como se a iniciativa apagasse do mapa símbolos, ritos e conhecimentos que atentassem a qualquer moral desejada.

Por falar em mapas, a recorrente tentação de ampliar territorialmente a ocupação por um grupo sempre existiu, e por vários motivos como ascensão a recursos naturais e extrativismo (água, petróleo, minérios e biomas), produção agropecuária, ordenação demográfica (com distribuição posterior de terras à clãs, nobres e religiosos), geopolíticas e economia (rota de comércio terrestre e marítima com pagamentos de impostos, passagem de oleodutos e, claro, governos em desafeto) etc.

Mas o homem é tão ímpar e genial que criou até uma espécie de código de conduta nas guerras.  As normas da Guerra, ou Direito Internacional Humanitário, estipulam o que pode e o que não pode ser feito durante um conflito armado. Incrível, não?

A bilionária indústria e comércio de armas (leia-se guerras) continuará, não sabemos até quando, a matar e ajudar a crescer o PIB dos Estados Unidos, sem medo de paradoxos ou julgamentos, interno e externo.

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