Eduardo Olimpio Por terra até Machu Picchu, há 30 anos – final

Por terra até Machu Picchu, há 30 anos – final

Do começo ao fim, uma descoberta de quem somos numa jornada nada próxima à ‘zona de conforto’ 

O inesperado cemitério profanado no deserto de Nazca

O inesperado cemitério profanado no deserto de Nazca

Arquivo pessoal

Até a Porta do Sol, entrada ‘oficial’ dos trilheiros que chegam à cidadela inca dependurada a pouco mais de 2400 metros acima do mar, as pernas percorreram dezenas de quilômetros a pé, subiram em ônibus, trens, vans, lancha (Lago Titicaca, de céu incomparável) e, lá pra frente eu conto, avião.

Machu Picchu é reveladora não somente pela história nela impregnada, mas pelo que faz a gente (se) descobrir quando em suas entranhas. Sacralidade e ritualística, senso de organização e de convivência, relação do homem e de seu conhecimento da natureza rochosa e cósmica, arquitetura, design (forma e função), agricultura e tecnologia (a lista segue), de um lado. Do outro, imperialismo, escravagismo, hierarquia, territorialidade. Tudo que encontramos nos textos, e muito do que também não encontramos neles.

Um dia basta para redescobrirmos a cidadela e aprendermos mais sobre a América, a Europa ibérica e romana, miscigenação e extermínio de um povo, que por 500 anos viveu em volta dela mas expandiu sua cultura em todo o altiplano andino compreendido entre Peru e Bolívia. Seu modo de ler as estrelas e o clima, de plantar, de se locomover, morar, reter e canalizar a água, se alimentar. Tudo está nos acessos, nas pedras, nas valas, nas precisas edificações divididas em moradias e templos, respectivamente, de serviçais e sacerdotes.

E o principal está na atmosfera local. Deixar os músculos moídos do corpo revitalizarem-se por entre becos, subidas e descidas, gramados, rochas e terras, e os pulmões fazendo seu serviço, não tem nada mais revigorante e gratificante.

Já no finalzinho da tarde e comecinho da noite, descemos a pé até a estação de trem que serve aos turistas e, pelos trilhos, em meia hora no sentido de Cuzco alcançamos um lugarejo apropriadamente denominado como Águas Calientes. Um verdadeiro spa natural onde mergulhamos nossos restos mortais em águas contrastantes vindas de córregos gélidos andinos e de buracos quentes onde fervilhavam moléculas de H2O, numa experiência noturna em meio à vegetação com uma lua cheia a alucinar nossas cabeças!

Missão cumprida? Quase. O objetivo inicial fora alcançado mas ainda restavam alguns dias e partimos ao sul para Arequipa. Na sequência, o deserto de Nazca nos esperava, numa travessia cambaleante dentro de um ônibus por muitas horas onde o frio congelante da madrugada contrastava com a tórrida temperatura a nos cozinhar na ‘lata de sardinha’ de rodas, sem estrada de asfalto.

Nazca tem aquelas figuras enormes ‘gravadas’ na areia nas formas de animais, plantas...e até de ‘astronauta’. Também patrimônio da UNESCO, vale cada dinheirinho para fazer um voo sobre o local e fotografar tudo, absolutamente tudo lá de cima. De quebra, pelas redondezas conhecemos um cemitério profanado no qual tumbas foram saqueadas por conta do ouro e suas múmias deixadas em pelo ar livre. Estavam lá, cerca de um século depois de terem sido ‘acordadas’ de seu sono eterno por criminosos exploradores.  

Lima estava na última escala da nossa aventura. Lá chegamos numa manhã de sábado, percorremos a capital e, no final de tarde, nos ‘batizamos’ nas águas do Pacífico para simplesmente garantir que, ao pegar o voo da meia-noite da saudosa Varig que vinha de Los Angeles, cinco horas depois desceríamos em Cumbica (SP) salgados (e bem mais magros), cheios de casacos de lã de Lhamas para dar e vender, exaustos e muito felizes.

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