Um símbolo para chamar de seu

Será que nós conseguiríamos viver sem as representações às quais projetamos, reconhecemos ou reverenciamos?

O planeta Terra está forrado de figuras, mosaicos, formações naturais e artefatos

O planeta Terra está forrado de figuras, mosaicos, formações naturais e artefatos

David Berkowitz/Flickr

Da linguística à química, da história ao sagrado (e profano), o planeta Terra e toda a humanidade que ele carrega sob sua crosta estão forrados de figuras, mosaicos, animais, formações naturais e uma infinidade de artefatos aos quais convencionamos chamar ou representar alguma coisa.

Desde sempre o Homem pôs-se a se refletir nas entranhas da natureza selvagem para tentar entender qual seu papel nisso tudo. Sem dispor de materiais manufaturados que dessem conta de cravar tridimensionalidade aos anseios por saber de si e de seu entorno, nomeava as coisas para minimamente dar algum sentido ao que experimentava.

E dessa inquietude quase instintiva ‘nasceu’ uma necessidade ainda maior, qual seja, de designar formas e nomes ao que, de alguma forma, o conduzisse a um sentido de existência, a um ‘ter ao que se apegar’ nos múltiplos momentos de vida e de pré-morte. Assim vem sobrevivendo com símbolos projetados, criando instituições individuais ou coletivas, se organizando socialmente e crendo em suas criações e suas leituras do mundo.

O culto ao símbolo ou, melhor dizendo, ao emblemático - como disse Caetano Veloso na ‘simbólica’ canção ‘Sampa’ (esta, aliás, recheada de alegorias) -, está associado a um grau de confiança àquilo que se solidificou no tempo para determinadas situações e populações. A religião cristã, o modo de produção comunista, o fator Rh do sangue, o movimento renascentista, a letra grega ômega, a árvore pau-brasil, a rosa dos ventos, a tatuagem e tudo, absolutamente tudo que o ser humano já teve contato, criou, descobriu ou foi vítima involuntária recebeu um nome e, nisso, automaticamente atribui-se um símbolo ao que de novo surgia.

E, claro, essa simbologia foi-se alterando e muitas das coisas, de novo, foram ressignificadas aos saberes e valores dos tempos, poderes instituídos e forças atuantes que nos levam a refletir até onde podemos, de fato, ‘crer’ que isso, qualquer um, é isso mesmo ou seu símbolo eterno, indivisível, indissolúvel.

Fica evidente, no entanto, que um mínimo de base de significados e símbolos deve haver como raiz porque, se assim não fosse, muito provavelmente não estaríamos a desfrutar do que atualmente temos e cultuamos, para o bem ou para o mal, diga-se. Mas não tão claro para o outro lado dessa história toda, como aos niilistas e iconoclastas, que prescrevem por assim dizer, uma desconstrução de tudo o que nos rodeia como instituição e símbolo.

A ausência do que até então existe, de qualquer crença, a oposição aos conceitos e formalidades, a desideologização política ao extremo e a simples ruptura como chamado status-quo são o combustível do niilismo, assim como a destruição de símbolos e de monumentos são da iconoclastia. Ou seja, o simbólico simplesmente aniquilado. Estamos acompanhando um pouco disso agora, com a destruição de estátuas de racistas e colonizadores/imperialistas mundo afora. Seria isso um privilégio dos tempos atuais? A sociedade já não viu isso antes em regimes políticos ou movimentos artísticos da Antiguidade à Pós-Modernidade?

Aprendemos que tudo é relativo. Das verdades às mentiras, dos sentidos aos fazeres, muitas são as variáveis pelas quais podemos nos emaranhar. Contudo, sempre há um preço a pagar, quer pela permanência inercial de como as coisas chegaram até aqui, quer pelas mudanças naturais ou provocadas pela natureza, inclusive a dos outros.

Tudo é abalável. Ou não.

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