Viagem, pra que te quero!

Destinos e trajetos são (des)temidos pela sua natureza em si, com ameaças visíveis, invisíveis e, por que não, também instigantes

Sentir o vento na cara e descobrir novos cheiros: sensação insubstituível

Sentir o vento na cara e descobrir novos cheiros: sensação insubstituível

Kun Fotografi/Pexels

Em tempos difíceis como os de hoje, viajar de avião para lugares remotos, longe de tudo e de todos, tornou-se uma atitude um tanto impetuosa. Digo isso porque, em sã consciência, quem se arriscaria a ficar longe de centros de saúde, de assistência médica, de algum aparato de segurança?

Até para locais ditos ‘civilizados’, entrar numa cabine voadora hermética e pressurizada, e nela ficar por algumas horas trocando moléculas gasosas com outros humanos, não me parece pertinente salvo em ato emergencial ou improrrogável. Mas, no mundo como está, ainda existe essa coisa de ‘inadiável’?

Por ‘necessidade existencial’, ou seja, inadiável’, fiz muitas viagens aéreas em busca de destinos ou roteiros que caberiam no rótulo ‘alternativos’, pelo Brasil e exterior, e em pouquíssimas saía de casa com um seguro-saúde entre os pertences. Não me ocorria, na maioria das vezes, passar por algum perrengue, mesmo sozinho em muitas delas. Isso somado, claro, à falta de razão nesta tola decisão.

A jovialidade sempre conta a favor para um desbravamento (quase) sem limites e, se não houvesse esse sentimento a nortear as andanças, eu teria me limitado a ficar no meu quarto, seguro, acompanhado da imaginação nutrida pelos cadernos de turismo de jornais amontoados e, o mais legal, sem a internet a me tentar.

Voltando, lembro até que podia-se fumar nas máquinas voadoras, respeitando-se a área para não fumantes, como se houvesse de fato uma, pois a fumaça, como a poluição e o deslocamento de partículas e micro-organismos virais e bacterianos, não entendem nada de fronteiras. Aliás, fenômeno este que se repete na espécie humana, diga-se!

Já em terra desconhecida, poder sentir o vento na cara e descobrir novos cheiros e partituras do ar era uma sensação insubstituível que, junto a outras, só acrescentaria de informações a minha cabeça, coração e, posteriormente, a memória e papeis fotográficos ou diapositivos (também conhecidos como slides). Tudo para ser lembrado e contado, em imagens impressas 10X15 ou em projeções num lençol branco pendurado na parede, em meio a amigos algum tempo depois do retorno.

A Terra e o Homem, de forma natural e como tem que ser, se transformam a cada instante de forma filosófica e química. Pessoalmente, isso acontece intensamente sem que sequer percebamos em tempo hábil. Por essas e por outras que nos assustamos quando algo invisível, mas sensível no corpo, nos força parar para olhar para a vida, nos seus limites, nos planos a serem executados, nas viagens feitas, nos prazeres experimentados e aprendidos com elas.

E pensar que me sentia protegido apenas com um confiável par de botas de tracking com solado Vibram, meu canivete Victorinox, meu frasco de Hidrosteril, minha Aspirina, minha velha calça jeans de qualquer marca com bolso falso costurado por dentro pela minha mãe para guardar o passaporte, o bilhete já comprado de volta e os poucos dólares. E, claro, com minha companheira e inseparável mochila, cuja etiqueta se perdeu ao longo dos anos de raspagens e atritos em superfícies mil.

Álcool em gel? Nem sabia de sua existência. E só recentemente me contaram do ‘walking tours 4K’. A tal substância já incorporei. O tal tour virtual ainda não experimentei.

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