Em cadeia

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A empreiteira Odebrecht tem um contato íntimo com o governo. Cresce com rapidez graças às obras públicas espalhadas por todo o Brasil. Não falta dinheiro para bancar os empreendimentos e o país precisa de infraestrutura para crescer. Barragens, estradas, prédios públicos, enfim, o leque de oportunidades é imenso. E empreiteiro nenhum pode deixar de abocanhar os cofres da viúva, sempre abastecidos pelos impostos dos cidadãos que dormem em berço esplêndido. Muitos acreditam sinceramente que a montanha de dinheiro gasto, e não investido, pertence ao governo e portanto ele faz o que bem entender. Os ventos políticos sopram uma suave melodia que os corruptos vão estar na cadeia. Uma questão de tempo. Os funcionários públicos fantasmas e improdutivos são incomodados e tirados da letargia com o nome na lista dos marajás. O presidente promete que vai caça-los todos e acabar com a sinfonia de elefantes de todas as cores que habitam os escaninhos da República.

O governo anterior sai enxotado do Palácio do Planalto. A lama alcança boa parte do plantel político e muitos buscam se esconder em novos mandatos. Perdem a fama de terem defendido a democracia e responsáveis pela volta dos militares aos quartéis e se embrenham em intermediar todo tipo de transação do Estado com empresários e empreiteiros. O Caçador de Marajas não mede esforços para ter no novo ministério da República homens novos. No Ministério do Trabalho indica um sindicalista, presidente de uma central sindical, uma novidade na história da República. Um operário do setor elétrico ocupa a pasta. A população, à princípio, não se dá conta do trabalho dele, afinal com o bloqueio de todas as contas bancárias, cada um está mais preocupado como vai viver sem dinheiro para pagar as contas. O choque na economia também é uma novidade. A imprensa está com dificuldades de entender o tal plano e o próprio presidente vai na televisão para tentar explicar o que a ministra da economia não consegue.

Antonio Rogério Magri, ministro do Trabalho, é acusado de corrupção. Uma fita gravada pelo assessor Volney Abreu Ávila mostra que o sindicalista queria grana da empreiteira do Norberto Odebrecht para liberar verba para uma obra pública. Uns trinta mil dólares, fifty-fifty , diz na língua de Shakespeare. Magri se defende e aceita uma entrevista na rádio Bandeirantes de São Paulo para enfrentar um time de jornalistas de primeira linha capitaneado pelo José Paulo de Andrade, no jornal da manhã. Na nascente CBN, também no jornal da manhã, no mesmo momento,  o entrevistado é o Volney. O técnico Giovani ¨Fafau¨ Diniz entra no estúdio e diz que o Magri está na Bandeirantes. Peço a ele que pergunte ao Zé Paulo, se topa por as duas rádios em cadeia e fazer um debate, ao vivo, entre acusador e acusado. O Zé topa, e ele media o debate com um entrevistado em um estúdio e outro em outro. A matéria tem ampla repercussão. Pela primeira vez duas emissoras concorrentes se juntam para um evento de interesse público. Graças a visão do jornalista José Paulo de Andrade isto foi possível e fomos recompensados com o Grande Prêmio de Jornalismo Líbero Badaró, da Revista Imprensa.