Fraude nas urnas

As urnas de madeira foram utilizadas desde o período imperial até a década de 50

As urnas de madeira foram utilizadas desde o período imperial até a década de 50

TRE-RS

Os militares criticam o sistema eleitoral brasileiro. Em reuniões fechadas, fazem duras críticas ao sistema adotado para a eleição, principalmente do presidente da República. Atribuem ao sistema uma forma institucionalizada de fraude a serviço de manter no poder a elite. A eleição, o sistema de votação, a cooptação do eleitor nos mais profundos rincões do país são apenas um cenário para vender interna e externamente que o Brasil é uma democracia representativa com liberdade de escolha de candidatos.

Principalmente a jovem oficialidade do Exército não se conforma com os rumos do país e articula nos quartéis formas de combater o que consideram um abuso de poder. As reformas de que o país tanto precisa, dizem, param quando esbarram em interesses consolidados e oligárquicos. Nada avança no Congresso Nacional, uma vez que ele é constituído pela maioria esmagadora dos representantes dos que detêm os privilégios no país.

As Forças Armadas estão politizadas e ninguém esconde isso, nem mesmo as suas lideranças que participam de reuniões em clubes militares, encontros em locais públicos e nas páginas de política dos veículos de comunicação. Os jornalistas avaliam que eles nunca deixaram de participar do processo político, mesmo porque três deles chegaram até mesmo à Presidência da República. Defendem a bandeira da ordem e do progresso e das mudanças esperadas para que o país se torne uma força nas Américas.

Tempo de eleição no Brasil é tempo de crise. Os partidos não têm base popular, são organizações burocráticas atreladas aos interesses regionais e de classe. São dominados pela oligarquia local e não têm alcance nacional. Na campanha presidencial se juntam a outros  partidos de outros estados para formar uma coligação que dá certo ar de alcance nacional.  Contudo, as alianças são costuradas sob a égide do tradicional “toma lá dá cá”. O candidato a presidente é escolhido pelos estados de economias mais fortes e com maior população. Alternam-se de uma forma que as disputas pelo cargo máximo da República sejam amenizadas e concentradas em banquetes e conchavos.

Há quem atribua a falta de controle da economia às diferenças sociais. Debate-se uma proposta de fundação de um banco nacional de emissão e redescontos, semelhante ao Federal Reserve Bank dos Estados Unidos, com autonomia para cuidar da moeda e equilibrar as contas públicas deficitárias. Contudo, o país está dividido, mais uma vez, entre dois candidatos à Presidência, e os ânimos cada vez mais acirrados. Não há programas de governo consolidados. Há acusações de lado a lado. A população assiste bestializada à troca de ofensas por meio das páginas dos
jornais. Não se sabe o que vai acontecer. Os militares estão atentos ao embate e não
escondem sua preferência por um dos candidatos.

As urnas estão prontas para receber os votos. Há uma manipulação clara, uma vez que o eleitor não sabe se o seu voto chega ao escolhido. As sessões eleitorais são manipuladas por cabos eleitorais. Muita gente não sabe exatamente do que se trata. As atas de apuração dos votos são fraudadas e enviadas para a contagem final. Os oligarcas destacam cabos eleitorais, muitos deles armados, para pressionar os que ousam perguntar em quem votar. Outros recebem pequenas recompensas em dinheiro ou presentes.

O candidato mineiro, Arthur Bernardes, é o favorito no esquema do “café com leite”. Teve uma prévia do que iria enfrentar quando desembarcou na estação central do Rio de Janeiro e é recebido com vaias, pedras, frutas pobres e muito xingamento. A muito custo chega ao  encontro organizado pelo Partido Republicano na sede do Clube dos Diários. Está ameaçado de
morte e pelas revoltas nos quartéis. A polícia é acionada para impedir que os manifestantes
invadam o local e parem de atirar coisas contra o carro que transporta o oligarca mineiro. Na imprensa, os comentários são que um homem com essa impopularidade não ganharia a eleição.

O carioca Nilo Peçanha é o preferido pela oposição e pelos militares. Porém, a máquina eleitoral corrupta e manipuladora dá a última palavra e Arthur Bernardes é eleito em 1922. O que se espera do seu quadriênio é uma sucessão de revoltas civis e militares, com muitas mortes, intervenção nos estados e sob a égide do estado de sítio. 

*Heródoto Barbeiro é jornalista R7, comentarista da Record News e Nova Brasil FM, além
de autor de vários livros de sucesso. Acompanhe-o por seu canal no YouTube “Por
dentro da Máquina”

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