Joel Rennó Jr Bem estar e saúde mental em pacientes com câncer

Bem estar e saúde mental em pacientes com câncer

Pacientes com câncer, antes e após o tratamento, sofrem frequentemente de depressão e ansiedade e isso prejudica a qualidade de vida. Preconceito e estigma são barreiras ao diagnóstico e tratamento precoce dos quadros.

Doenças Mentais e Oncológicas estão entre as doenças com mais desinformações, preconceitos e estigma. Toda a Sociedade deve se mobilizar para superar essas barreiras arcaicas.

Joel Rennó Jr

Unsplash

O diagnóstico de câncer tem um impacto significativo na trajetória do indivíduo. Medos, incertezas e desconfortos físicos causados pela doença e seu tratamento passam a ocupar lugar central na vida do indivíduo.

Recentemente, tive a honra de participar, como palestrante convidado pelos ilustres colegas oncologistas Dr Fernando Maluf e Dra Andréa Paiva Gadelha, do 1o Workshop para Pacientes do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos- EVA. O tema da mesa redonda foi: Qualidade de Vida e Bem Estar durante e após o tratamento dos tumores femininos. A abordagem multidisciplinar foi o foco.

O sofrimento abrange diversas dimensões e usamos o termo em inglês “distress” que é definido como uma experiência multifatorial desagradável e angustiante, de natureza psicológica (cognitiva, comportamental e emocional), social, espiritual e/ou física que pode interferir na habilidade de lidar efetivamente com o câncer, seus sintomas físicos e tratamentos.

O sofrimento pode ir desde a percepção da própria vulnerabilidade, tristeza, fantasias e medo ante o desconhecido, sendo considerado uma resposta natural da pessoa que vivencia a doença e seu tratamento, até reações mais intensas levando a um distúrbio psiquiátrico diagnosticável. Em cerca de 1/3 dos pacientes com “distress” significativo ocorre a evolução para depressão, ansiedade, transtorno de ajustamento e transtorno do estresse pós traumático.

Ainda, por questões de preconceito e estigma, temos uma baixa procura por suporte psíquico dos pacientes oncológicos. Os principais fatores incluem: 1) baixo interesse dos próprios pacientes em discutir questões emocionais já que privilegiam os sintomas físicos; 2) conhecimento insuficiente do tipo de apoio que pode receber; 3) medo de ser estigmatizado; 4) paciente aguarda que o oncologista aborde o assunto.

Alguns oncologistas relutam em discutir aspectos emocionais por entenderem sintomas somáticos depressivos como secundários ao câncer. Em algumas situações, os sintomas depressivos e ansiosos são até considerados reações normais e isso impede o diagnóstico e tratamento corretos aumentando diversos riscos envolvidos. É primordial que todos os profissionais da área de saúde sejam sensibilizados para essa abordagem.

Segundo um estudo internacional relevante com 21 mil pacientes, a taxa de depressão pode variar entre 2% a 56% dos pacientes, enquanto 44% dos pacientes sofrem de algum grau de ansiedade e 23% têm sofrimento significativo. As maiores prevalências de depressão ocorrem em pacientes com câncer de pulmão (13%), câncer ginecológico (10,9%) e câncer de mama (9,3%). Mulheres mais pobres, jovens e isoladas são as mais afetadas. A depressão ocorre mais no primeiro ano após o diagnóstico.

Em um estudo amplo e significativo com 4,7 milhões de pacientes com câncer, 2491 pacientes cometeram o suicídio e o risco de suicídio foi 2,7 vezes maior nos primeiros 6 meses após o diagnóstico.

Além dos estressores psicossociais, há alguns fatores biológicos envolvidos no maior risco de depressão em pacientes oncológicos como um estado pró inflamatório e o estresse crônico que pode interferir no eixo endócrino hipotálamo- hipófise e glândula adrenal.

Importante diferenciar um quadro reacional de um quadro eminentemente depressivo. Na doença depressiva, os sintomas são mais severos e prolongados, a anedonia (perda de prazer ou interesse em atividades habituais) é muito comum, os sentimentos de desespero, culpa e desesperança são pervasivos, as pessoas se isolam e a ideação suicida pode estar presente. Esse quadro requer tratamento seja psicoterápico e/ou medicamentoso.

Atualmente, temos uma linha promissora de pesquisas demonstrando que a yoga e acupuntura podem ser importantes para melhora dos sintomas ansiosos e até cognitivos (queixas de memória) desses pacientes.

Por fim, a Disfunção Cognitiva Relacionada ao Câncer conhecida pela sigla DCRC pode ser decorrente de ações diretas de alguns tipos de tumores no sistema nervoso central (SNC) como também de quadros psiquiátricos de ansiedade e depressão. As pessoas que sofrem de DCRC podem ter alterações na parte frontal do cérebro com prejuízos da atenção, funcionamento executivo (planejamento e organização de tarefas) e aprendizado. Há alguns trabalhos interessantes de reabilitação cognitiva com jogos e testes de computador que apresentam bons resultados. Muiito importante a abordagem precoce porque 13% dos sobreviventes de câncer infelizmente param de trabalhar após 4 anos do diagnóstico devido à DCRC. Sintomas cognitivos impactam significativamente na qualidade de vida de mulheres com câncer de mama- segundo uma metanálise com 25 estudos e 4189 pacientes.

Portanto, quando falamos em qualidade de vida e bem estar dos nossos queridos pacientes oncológicos a saúde mental tem que ser a grande prioridade entre profissionais de diversas especialidades. Em outubro, teremos o Outubro Rosa, mês de prevenção do câncer de mama e outros femininos de uma forma geral. Que possamos juntos superar todas as barreiras que impedem a felicidade e reconstrução de vida ativa das pacientes que sofreram ou sofrem com o diagnóstico de câncer.

Acesse: O Workshop de Pacientes e Familiares está disponível para visualização no site www.eva.org.br

Referência de leitura para profissionais de saúde:

Seção 5- Interconsulta Psiquiátrica- Capítulo 14: Interconsulta em Oncologia
Livro: Clínica Psiquiátrica, Volume 2, As Grandes Síndromes Psiquiátricas
Autora: Simone Maria de Santa Rita Soares
Editores: Eurípedes Constantino Miguel, Beny Lafer, Helio Elkis e Orestes Vicente Forlenza
Editora MANOLE

Últimas