Luiz Fara Monteiro 'Eles vão me matar', disse jornalista após anúncio de desvio de voo

'Eles vão me matar', disse jornalista após anúncio de desvio de voo

Relatório da Icao afirma que ameaça de bomba informada pela Bielorrússia à Ryanair era falsa. Mudança na rota resultou na sua prisão 

Ryanair: relatório diz que ameaça de bomba era falsa

Ryanair: relatório diz que ameaça de bomba era falsa

Wikimedia Commons

A ameaça de bomba que resultou no desvio de um avião da Ryanair e, consequentemente, na prisão do jornalista bielorrusso Roman Protasevich — crítico do regime do presidente Alexander Lukashenko,  da Bielorrússia — era falsa. A conclusão é de um relatório produzido pela Icao (Organização Internacional da Aviação Civil), cujos trechos foram divulgados pelo The Aviation Herald.

"Como nem uma bomba nem evidências de sua existência foram encontradas durante a triagem antes da partida, em Atenas, na Grécia, e após várias buscas na aeronave na Bielorrússia e na Lituânia, considera-se que a ameaça de bomba foi deliberadamente falsa", diz o documento.

O relatório foi elaborado por uma equipe de investigadores da Icao composta de especialistas em segurança e navegação, além de profissionais do direito aeronáutico internacional.

Em 23 de maio de 2020, o voo da companhia irlandesa Ryanair FR4978 partiu de Atenas, na Grécia, com destino a Vilnius, capital da Lituânia. A aeronave sobrevoava o espaço aéreo da Bielorrússia quando, a cerca de 10 quilômetros da fronteira com a Lituânia, a tripulação foi alertada pelos controladores de voo do país sobre uma possível ameaça de bomba a bordo. O avião mudou de direção e seguiu para Minsk, capital da Bielorrússia.

"Temos informações dos serviços especiais de que você tem uma bomba a bordo, que pode ser ativada em Vilnius (...) por razões de segurança, recomendamos que você desembarque no Uniform Mike Mike Sierra", numa referência ao código Icao para o aeroporto de Minsk.

De acordo com o controle de tráfego aéreo (ATC) de Minsk, um email recebido por outros terminais continha a seguinte ameaça:

"Nós, soldados do Hamas, exigimos que Israel cesse fogo na Faixa de Gaza. Exigimos que a União Europeia abandone seu apoio a Israel nesta guerra. Sabemos que os participantes do Fórum Econômico de Delphi estão voltando para casa em 23 de maio no voo FR4978. Uma bomba foi plantada nessa aeronave. Se você não atender às nossas exigências, a bomba explodirá em 23 de maio sobre Vilnius. Allahu Akbar".

Jornalista Roman Protasevich: preso na Bielorrússia

Jornalista Roman Protasevich: preso na Bielorrússia

Wikimedia Commons

Segundos depois, um email com o mesmo texto foi recebido pelo operador do aeroporto na Lituânia. Um minuto depois o aeroporto de Atenas e o aeroporto de Sofia receberam emails com o mesmo texto.

O relatório, no entanto, não mostra nem cita todo o cabeçalho do email.

O Ryanar então solicita esclarecimentos sobre a origem da mensagem. O controlador limita-se a responder que “o pessoal de segurança do aeroporto informou que recebeu email”. A tripulação questiona então se se tratava do pessoal de segurança do aeroporto de Vilnius ou da Grécia.

O controlador informa: “Este email foi compartilhado com vários aeroportos”.

A tripulação da aeronave pede para entrar em contato com seu setor de operações via radiofrequência. Sem sucesso. 

O Ryanair pergunta ao ATC de onde veio a recomendação para desviar o voo para Minsk. O controlador respondeu que era sua recomendação.

Sem obter sucesso, a aeronave tenta vários contatos com as autoridades em Minsk para obter informações mais detalhadas sobre a ameaça à segurança.

Os pilotos do Ryanair solicitam o código da ameaça e o controlador afirma:

"Eles avisam que o código é vermelho".

Quinze minutos depois de ser informada da ameaça pelo ATC de Minsk às 09:57 (hora Zulu), a tripulação desvia o avião para Minsk, declara emergência e seleciona em seu transponder o código 7700, que significa "emergência a bordo".

Desvio do voo da Ryanair

Desvio do voo da Ryanair

Arte BBC

Logo a seguir, um dos pilotos do Ryanair faz anúncio aos passageiros (PA), informando o desvio para Minsk por questões de segurança.

Em pânico, o jornalista bielorrusso Roman Protasevich levanta-se de seu assento e dirige-se aos comissários:

“Sou procurado lá, eles vão me matar”.

Os tripulantes tentam tranquilizar o passageiro. Apesar do medo, os comissários relataram posteriormente que Protasevich permaneceu disciplinado.

Um MIG-29 chegou a ser despachado para escoltar o Ryanair. Mas, de acordo com o Aviation Herald, o caça militar não chegou a interceptar o Boeing 737-800, que pousara em Minsk.

O relatório é claro ao afirmar que nenhuma evidência foi fornecida pelo controle de Minsk ou da Bielorrússia de qualquer tentativa de contato com o Centro de Operações da Ryanair. O plano de voo continha um número de telefone para contato direto com o centro, embora sua inclusão não fosse baseada em nenhuma disposição da Icao. No entanto, há evidências em gravações telefônicas e transcrições de que o Centro de Controle da Ryanair tentou, em várias ocasiões e sem sucesso, obter informações sobre a aeronave desviada até horas após o pouso em Minsk.

As conversas de coordenação entre as tripulações de voo que levaram à decisão de desviar o avião para o aeroporto de Minsk não puderam ser totalmente confirmadas, pois o disjuntor do CVR não foi puxado após o pouso em Minsk. Como resultado, as conversas completas da tripulação do voo, antes do período em que a aeronave estava na curta final para o aeroporto de Minsk, não foram preservadas.

Assim que a aeronave pousou no aeroporto de Minsk, o jornalista Roman Protasevich, crítico e organizador de manifestações contra o presidente Alexander Lukashenko, foi preso por agentes de segurança da Bielorrússia, assim como sua namorada, a russa Sofia Sapega. Lukashenko é considerado por críticos o último ditador da Europa.

O desvio da aeronave pelo governo bielorrusso foi considerado por vários líderes políticos da Europa um caso de sequestro e pirataria. 

De acordo com o Deutsche Welle, líderes da União Europeia (UE) condenaram veementemente a prisão e o desvio da aeronave, que voava entre dois países-membros do bloco comunitário e era operada por uma companhia aérea baseada na Irlanda, que também faz parte da UE.

Em cúpula nesta segunda-feira, a UE decidiu impor sanções à Bielorrússia e exigiu a libertação imediata do jornalista detido, bem como da namorada dele.

As sanções incluem a proibição de todas as companhias aéreas da Bielorrússia de usar o espaço aéreo e os aeroportos dos 27 países-membros do bloco.

Os líderes da UE também aconselharam as empresas com base na União Europeia a evitar sobrevoar a Bielorrússia, país sem acesso ao mar localizado entre Polônia, Lituânia, Letônia, Rússia e Ucrânia.

Bruxelas ainda se comprometeu a ampliar a lista de sancionados na Bielorrússia, que atualmente contém 88 pessoas — entre elas o presidente Lukashenko — e 77 entidades. Essa nova lista deverá ser aprovada "quanto antes", pediram os chefes de Estado e governo.

Representantes do conselho da Icao devem se reunir em 31 de janeiro para examinar eventuais ações adicionais a ser tomadas pela organização, com sede no Canadá. 

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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