Nosso Mundo China reforça a imagem de ditadura com fim do limite de reeleição

China reforça a imagem de ditadura com fim do limite de reeleição

Potências globais, porém, diminuíram as críticas ao regime, por causa de interesses financeiros, enquanto Xi Jinping se perpetua no poder

China, ditadura

Xi Jinping é o mais carismático líder chinês das últimas décadas

Xi Jinping é o mais carismático líder chinês das últimas décadas

Reuters

Na China, quando o Partido Comunista propõe algo, é certo que não se trata de uma proposta, mas de uma determinação. Por isso, salvo algum imprevisto de grande magnitude, Xi Jinping, de 64 anos, continuará como presidente do país por muito tempo, com poderes semelhantes aos de um imperador, afastando-se cada vez mais da democracia.

A sugestão do governista PC, feita no último domingo (25), de anulação de uma cláusula constitucional que estabelece um máximo de dois mandatos presidenciais, é um sinal de que a China vive novos tempos, que remetem ao passado e, ao mesmo tempo, vislumbram o futuro.

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É hora, na visão do partido, de retomar uma forte centralização, ao estilo da era de Mao tsé-Tung (1949 - 1976), para dar sustentação ao país em seu projeto de ampliar cada vez mais os mercados e se tornar uma potência militar nos próximos anos.

Para o professor de Relações Internacionais da UFABC (Universidade Federal do ABC), Igor Fuser, a intenção do popular Jinping é acabar com a incerteza sobre a manutenção dos rumos na China. Para tanto, aproveitando sua popularidade ao combater a corrupção dentro do PC e ao investir na infraestrutura, ele conseguiu obter o irrestrito apoio do partido, que se curvou às suas intenções, e até incluiu suas ideias na Constituição do país.

— Pela primeira vez, desde Deng Xiaoping, existe a personalização no poder de um dirigente que tem ideias proprias, carisma, liderança e não quer deixar margem a dúvidas quanto as decisões dele. Será uma medida muito voltada para supressão de disputas internas dentro do partido e, externamente, uma mostra de coesão, de unidade, de estabilidade na gestão política da China.

China renovada

A decisão deverá ser corroborada no próximo dia 5 pelo Congresso Nacional Popular. E perpetuará a quinta geração da República Popular da China, iniciada por Mao Tsé-Tung (1949-1976) após a revolução comunista e sustentada pelos governos de Deng Xiaoping (1978-1992), Jiang Zemin (1993 - 2003) e Hu Jintao (2003 - 2013).

As sucessivas mudanças fizeram parte de um projeto do partido para rejuvenescer o comando chinês, em um momento no qual, conforme afirma Fuser, Xiaoping temia que a China caísse em uma decadência de ideias semelhante à URSS, com líderes de idade avançada e sem dinamismo. Foi no governo de Xiapong que houve a limitação da reeleição.

— Os limites da reeleição foram estabelecidos para garantir renovação dos quadros dirigentes, havia um problema no comando do Estado e do partido, que era a presença de gente muito idosa, os veteranos da revolução. Deng Xiaoping queria evitar que a China passasse pelo mesmo processo de gerontocracia (governo de idosos) que deu à União Soviética uma imagem decadente. A iniciativa funcionou, houve renovação com novas gerações injetando dinamismo e novas ideias.

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Ditadura chinesa

Tais práticas acabam sendo muito criticadas pelos governos ocidentais, cujas democracias são estabelecidas com base na decisão da maioria e na renovação dos governos. Mas na China prevalece outro conceito, outra visão política, bem distantes dos conceitos democráticos ocidentais. E, pelo menos para a cúpula governista, apegada a um rígido controle das ações da população, esse estilo de ditadura tem dado certo.

Ultimamente, porém, o crescimento econômico chinês e a introdução do país em vários mercados mundiais, monopolizando parte do comércio internacional, fizeram as críticas ao modelo chinês ficarem bem mais tímidas. Antes elas eram quase tão implacáveis quanto às dirigidas ao atual governo venezuelano. Fora agências de direitos humanos, o coro contrário à repressão e à ainda presente desigualdade praticamente saírem da pauta das grandes potências. O dinheiro, afinal, fala mais alto do que direitos. Fuser, neste sentido, completa:

— Do ponto de vista ocidental, a China não é mesmo uma democracia, mas ninguém fora do país está preocupado com isso.

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