Nosso Mundo Estados Unidos e Irã já foram aliados, bem antes das sanções

Estados Unidos e Irã já foram aliados, bem antes das sanções

Na última segunda-feira (21), EUA formalizaram novas sanções contra o governo iraniano, acusando-o de violar as regras e manter um projeto nuclear

  • Nosso Mundo | Eugenio Goussinsky, do R7

Pompeo fala durante conferência em Washington

Pompeo fala durante conferência em Washington

Patrick Semansky/Reuters/21-09-20

Pérsia era considerado o nome oficial do Irã até 1935. Foi quando o xá Reza Shah Pahlevi modificou a denominação para Irã, em referência à palavra Iran, que significa "terra dos arianos", uma numerosa população nos tempos dos sassânidas (último império persa antes da chegada dos islâmicos, em 651 d.c), e utilizada pela população local.

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Foi uma maneira de o xá mostrar que quem deveria definir os destinos do país era a sua população.

Esta luta pela identidade levou o Irã a dominar e a ser dominado, quase não encontrando outra variedade em sua trajetória, desde o Império Persa, que depois foi vencido pelos turcos (século 11), mongóis (século 13), até se restabelecer como Pérsia, no século 16.

A atual inimizade com os Estados Unidos é mais um capítulo desta história.

No último sábado (19), o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, anunciou que, após os Estados Unidos se retirarem em 2018 do acordo nuclear assinado entre Irã e as potências ocidentais em 2015, o país restaurou as sanções contra o governo iraniano, acusando-o de violar as regras e manter um projeto de armamento nuclear.

"Hoje, os Estados Unidos dão as boas-vindas ao retorno de praticamente todas as sanções da ONU anteriormente encerradas contra a República Islâmica do Irã", disse Pompeo.

A posição foi formalizada em conferência, nesta segunda-feira (21), em Washington.

E a reação iraniana, nas palavras do presidente Hassan Rouhani, veio em um discurso em prol da identidade do país, ainda revoltado com o assassinato, orquestrado pelos Estados Unidos, do general Qassem Soleimani, em janeiro último, acusado de terrorismo pelo governo americano.

“A América está se aproximando de uma certa derrota em seu movimento de sanções... Enfrentou a derrota e a resposta negativa da comunidade internacional. Nunca cederemos à pressão dos EUA e o Irã dará uma resposta esmagadora à intimidação dos EUA ”, disse Rouhani durante uma reunião de gabinete, segundo a Reuters.

Mas a mesma busca de identidade já fez do governo americano um aliado. Isso ocorreu entre o fim do século 19 e início do século 20. Somente em 1979, com a Revolução Islâmica, o conflito entre ambos se estabeleceu.

A revolução tinha o discurso ligado a essa busca da identidade do país, o que seduziu a população.

Mas até alguns anos antes, os americanos eram vistos de forma amistosa, tendo, inclusive, apoiado o regime ditatorial do Xá Reza Pahlevi (filho de Reza Shah Pahlevi), o que também causou descontentamento na população e foi uma das causas da revolução.

A relação se estabeleceu após britânicos e soviéticos dividirem, desde 1907, o país, que passou a buscar alguém para neutralizar tal influência, nociva por utilizar a mão de obra local, explorar o petróleo e afundar a nação na miséria.

Mas, sem os Estados Unidos implementarem um regime de união nacional, atendo-se apenas em realizar reformas pró-ocidente, e não conseguir combater a corrupção e a crise econômica, a Revolução Islâmica ocorreu, levando o governo iraniano a uma postura combativa, que visava apenas aos seus próprios interesses de se manter no poder.

O antigo "trauma" da dominação facilitou essa fórmula de conflito, baseada na barganha nuclear iraniana, no discurso nacionalista e radical do governo, na prática comandado pelos aiatolás. E, acima de tudo, na falta de transparência, o que dificulta, e muito, a afirmação da identidade.

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