Nosso Mundo Estados Unidos vivem a busca da sua própria identidade

Estados Unidos vivem a busca da sua própria identidade

Esta eleição, entre Joe Biden e Donald Trump, é uma das  que mais levaram o povo americano a olhar para as suas próprias raízes

  • Nosso Mundo | Eugenio Goussinsky, do R7

Justin Lane/EFE/04-11-20

Nem é preciso entender muito inglês para saber do que se trata a música "This is Not America", de David Bowie e Pat Matheny. Os adolescentes dos anos 80, quando ela foi lançada, a ouviam e decifravam a estrofe que remete a um mundo enigmático, cheio de incertezas e decepções, com um boneco de neve derretendo e nuvens vermelhas no amanhecer dos sonhos.

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Taí a descrição do ser humano, de suas contradições transitando entre a euforia e a depressão. Taí a descrição dos Estados Unidos. Na dúvida angustiada e esperançosa, esta é a América. A partir da própria negação de si mesma.

Ser América é estar em permanente turbilhão. Um turbilhão tão intenso que resvala na permanente dúvida sobre a própria identidade, amparado nas mais sólidas instituições do mundo.

Em 228 anos de eleições, nunca houve um golpe ou algo que adiasse a votação de quatro em quatro anos. O sistema político funciona como um relógio e é o pano de fundo que permite manifestações às vezes tão intensas que beiram a uma guerra civil, como ocorreu em várias ocasiões a partir do século 20.

O país foi moldado para lidar com a liberdade, de forma a lidar também com o ódio. Liberdade e ódio, amor ao próximo e patriotismo, Estado forte e direitos individuais interagem em meio a um complexo de regulamentações simplificadas. This is America.

O ponto alto vem quando os lados opostos se integram. As guerras mundiais acabaram por dar alicerce às diferenças, com cada um contribuindo de alguma maneira com o país. Franklin Delano Roosevelt foi o único presidente a ser eleito em quatro mandatos (1933-1945).

Reeleger-se apenas uma vez era uma praxe adotada pelos governos, mas em função da guerra, Roosevelt optou por se candidatar e se manter no comando da nação. Em 1947, já sem ele, foi implementada a lei que formalizava a proibição de uma segunda reeleição.

Roosevelt mostrou naquele momento simpatia por boa parte dos republicanos, incumbindo o derrotado Wendell Wilkie de fazer uma viagem representando o país, logo após as eleições de 1940.

Abraham Lincoln (1861-1865) tinha um viés tão progressista que muitos o associam a ideais democratas. Mas ele fazia parte do conservador Partido Republicano. Assim como o conservador Donald Trump já foi do Partido Democrata.

E nessas idas e vindas da política americana, as instituições permanecem intactas. Fortes o suficiente para resistirem ao retrocesso da evolução, com o racismo substituindo o escravagismo, o silêncio dando lugar às covardes chibatadas, como tão bem visto no livro "Raízes", de Alex Haley. Mas também com espaço para reações indignadas.

Esta eleição, entre Joe Biden e Donald Trump, é uma das que mais levaram o povo americano a olhar para as suas próprias raízes. A ponto de se perguntar, a cada instante nos últimos anos, "This is not America"?

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