Nosso Mundo Feriado do Yom Kipur terá celebração a distância

Feriado do Yom Kipur terá celebração a distância

Por causa da pandemia, cerimônias, como a da CIP, serão transmitidas pela TV e internet; Beit Chabad será um dos únicos a receber publico, com protocolos

Toque do shofar (chifre de carneiro) é um dos rituais

Toque do shofar (chifre de carneiro) é um dos rituais

Reprodução/Facebook/A Hebraica

Uma das belezas do dia do Yom Kipur, celebrado nesta segunda-feira (28) e tido como o mais sagrado do Judaísmo, é que ele acaba tendo um alcance que vai além da comunidade judaica.

Mas, quando somos crianças, esse tom solene chega a ser assustador, ao acordarmos, pela manhã e, em vez de ir para a escola, ou para o clube, nos arrumamos como se fosse para uma festa e nos dirigimos, em silêncio e trajes elegantes, para uma sinagoga. A fim de pedir perdão.

Fica estranho ver a cidade sob esse prisma. Neste exato dia, enquanto a maioria repete sua rotina, pelo trânsito, andando pela rua ensolarada, a passos apressados, a comunidade judaica vive um momento de introspecção.

As sinagogas ficam abarrotadas. O clube A Hebraica, por exemplo, tem sua instalações esportivas esvaziadas. Apenas os gritos das crianças correndo nos finais de semana permanecem em nosso imaginário.

A correria costumeira dá lugar a uma contemplação, as pessoas vão chegando com sapatos no lugar de tênis, ternos no lugar de roupas esportivas, de maneira mais tranquilia, até entrar no salão, onde o chazan (cantor litúrgico) Gerson Herszcowicz entoa seu canto com um timbre que já virou marca desta data.

Às vezes, há um murmúrio das conversas que vêm de lá da entrada, o que obriga ao condutor pedir silêncio.

Mas, sentados nas cadeiras laterais, com olhar direcionado ao púlpito no centro, os participantes parecem se render à solenidade, cada um à sua maneira.

Rivalidades não são amenizadas por completo. Os problemas não desaparecem.

Mas, pelo menos, o momento dá uma abertura a uma outra voz, a um chamado coletivo que, obrigatoriamente, acaba se colocando acima de cada um.

Um dos maiores símbolos desta data é o jejum, que se inicia antes do pôr-do-sol da véspera até o completo anoitecer do dia seguinte. Seu sentido é o de uma purificação, da busca do conceito da humilde condição humana.

Fica proibido comer e beber, lavar-se (ao levantar pela manhã é permitido lavar apenas os dedos e passa-los nos olhos), passar cremes, óleo ou maquiagem (no rosto ou no corpo), calçar sapatos de couro e ter relações conjugais.

Nem todos seguem à risca esses preceitos, variando de acordo com a ortodoxia.

O outro momento de maior impacto é o toque do shofar, instrumento bíblico feito de chifre de carneiro, que aproxima as pessoas da divindade, anunciando o fim da cerimônia.

O maior objetivo neste dia é cada indivíduo se redimir dos seus pecados, por meio de um julgamento divino. Até o próximo ano.

Tudo por meio da prece, do jejum e, principalmente da reflexão.

Para mim, muitas vezes era penoso ficar o tempo inteiro na sinagoga. Assim como muitas crianças, eu saía pelo jardim, brincava, sujava a roupa elegante, manchava o sapato de barro.

Mas não conseguia me desprender do clima da celebração.

Algo estava sempre presente. Uma responsabilidade, uma consciência, ecos da reza latejando em nossa memória. Quebrar o jejum, então, gerava uma culpa imensa.

Quando adultos, percebemos que não era só em nossa mente que o ritual prevalecia.

Esse momento acaba ressoando na sociedade como um todo. É um momento no qual o judaísmo interage com todas as religiões. E experimenta o respeito vindo de inúmeros lados.

Profissionais não costumam ter problemas para serem liberados de seus compromissos.

Vizinhos se prontificam a cuidar da casa na ausência dos proprietários.

Amigos se dispõem a fazer uma bela refeição para, na volta, receber aqueles que jejuam. E por aí afora.

Quando criança, quando eu conseguia jejuar (pelo menos um pouco), a primeira coisa que fazia era correr para uns balcões colocados perto da praça do clube, com bolo e água, para saciar a fome. Corria e pegava um pedaço também para o meu pai.

Este ano, a pandemia provocou muitas mudanças. Muitos locais não terão cerimônia. Elas serão realizadas nos lares de cada um.

Várias delas serão transmitidas pela televisão e internet, como a da CIP (Congregação Israelita Paulista).

Outras, por meio de cinema drive in, como o Centro Cultural e Social Bnei Chalutzim, em Alphaville.

O Beit Chabad, mais ortodoxo, será um dos únicos a terem cerimônia presencial, com distanciamento e protocolos sanitários.

De qualquer maneira, neste ano não haverá para as crianças muitas brincadeiras nos jardins. Nem o clima solene e perfumado da sinagoga, para os adultos.

Tampouco haverá a corrida pelo bolo no fim.

O jejum, no entanto, está mantido. Como sempre.

E a fome a ser saciada neste Yom Kipur simboliza a própria essência da data, sempre voltada a um novo amanhã.

É a fome de que tudo isso, em breve, tenha passado. Ve'imru Amen - e todos nós diremos Amém.

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