Por que nos EUA? Saiba outras causas da violência no país

Além do porte de armas especialista vê vícios na sociedade americana que possibilitam a violência de alguns jovens

Assassinatos em massa têm causado dor e inconformismo nos EUA

Assassinatos em massa têm causado dor e inconformismo nos EUA

Reuters

A quase total liberdade de acesso a armamentos da sociedade americana já é um consenso, quando se fala das causas dos assassinatos em massa, que têm marcado a rotina dos Estados Unidos nos últimos tempos.

O último deles ocorreu na quarta-feira (14), quando o atirador Nikolas Cruz matou 17 pessoas na escola Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, na Flórida.

Além desse fator armamentista, porém, uma atmosfera que alimenta a violência destes indivíduos deve ser incluída como causa complementar, na opinião de especialistas, entre os quais o professor José Niemeyer, coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec do Rio de Janeiro.

A sociedade ocidental, como um todo, tem se permitido autodenominar-se como referência, exibindo orgulhosa sua luta na defesa de liberdades democráticas, o que é verdade. Mas, por outro lado, um apego à irracionalidade e à violência se oculta por trás de uma névoa que toma conta destes céus paradisíacos.

E assim vieram a escravidão, ditaduras militares, guerras, revoluções, mesmo as por uma boa causa, irrompendo pela história, seduzindo a civilização para aventuras sangrentas, desde os fenícios até a era contemporânea, passando pela Idade Média e pelas seguidas revoluções, até a estabilização da Europa. E o surgimento de um Ocidente que insiste em se mostrar irretocável.

Os Estados Unidos dos séculos 20 e 21, porém, tiveram um papel a mais neste cenário. Função que se diferenciou da de outras nações, que conseguiram refrear alguns ímpetos imperialistas, para desenvolver uma Educação que pudesse dar mais vazão ao lúdico e à preservação de valores culturais. A França, com todos os seus problemas, é um exemplo neste sentido.

Niemeyer também vê na sociedade americana um vício que tenta esquivá-la da realidade, ludibriada pela permanente ânsia de protagonismo do país. Contaminada por um histórico recente marcado por intervenções militares, que deram aos Estados Unidos da América, sem deixar de lado todas as suas inquestionáveis contribuições, o apelido de "Polícia do Mundo". Acontece que todo policial anda armado.

— Acredito que a Guerra do Vietnã tenha tido influência importante para analisarmos o atual contexto, e também outras ações, por exemplo no Oriente Médio. Esse caráter extremamente apegado às Forças Armadas, a ânsia de intervir militarmente em outras sociedades, alimentaram uma cultura militar, bélica, baseada na utilização da violência para dirimir conflitos. Isso influencia o jovem americano.

Jovem este que busca resolver conflitos internos, por meio da violência tão repetidamente realçada em sua mente. Cuja educação, em muitos casos, tem sido distorcida por uma competitividade excessiva, pelos filmes de violência, pelos games que engolem ensinamentos, valores éticos, a visão do outro.

Atirador da Flórida é acusado de assassinato premeditado

E assim acabam implodindo a influência da escola, que, muitas vezes, não tem sabido lidar com essa questão. Como uma mãe que mimou seus filhos, por mais que ela os ame e tenha as melhores intenções, ela está atônita diante do ímpeto destrutivo que neles se potencializou, conforme ressalta Niemeyer.

— Além da óbvia questão do armamento, há uma sociedade hedonista, que privilegia os que se impõem e acaba excluindo os que são mais discretos. A obsessão pela fama, o apreço pela eloquência, a competitividade extrema, em um capitalismo que tem propiciado diferenças econômicas, desigualdade e estresse, contribuem para um ambiente propício a ações como a ocorrida na Flórida.