A era do Homo Pixel: você não existe mais como antes

Para novos tempos, novas estratégias. Para novas estratégias novas adaptações do pensamento e riscos. O ser humano evolui e se torna cada vez mais complexo. Se você ainda pensa como o Homo Erectus, se prepare para o fim

A autômata Cléo, da plataforma Mesmer, hoje a robô mais próxima de um ser humano, que pensa, canta e tem gestuais humanos.

A autômata Cléo, da plataforma Mesmer, hoje a robô mais próxima de um ser humano, que pensa, canta e tem gestuais humanos.

Reprodução/Engineered Arts

Me lembro claramente de um evento onde palestrei no InovaBra, espaço de inovação e conhecimento do banco Bradesco, em São Paulo, em 2018. Lá, uma das palestrantes, Alexandra Favero disse uma palavra que moldou parte do meu pensamento até hoje: Homo Pixel.

De lá para 2021, desenvolvi muitas teses sobre este novo elo na cadeia do desenvolvimento humano. Ainda que a antropologia não reconheça oficialmente o Homo Pixel, acredito que ele já está consolidado entre nós, sobretudo após o início da pandemia e sua evolução se dará pela geração Alfa, a primeira na história da humanidade 100% digital. De acordo com a Wikipedia, "Pixel é o menor elemento em um dispositivo de exibição (por exemplo, um monitor), ao qual é possível atribuir-se uma cor. De uma forma mais simples, um pixel é o menor ponto que forma uma imagem digital, sendo que um conjunto de pixels com várias cores formam a imagem inteira."

Para mim, nascido em 1980 é uma transição interessante. Minha geração aprendeu tudo de gente com meus pais e avós e permanece em constante atualização desde o avanço frenético das tecnologias adotados pelas novas gerações. Estou vendo, vivendo uma realidade que já previam em filmes e séries como Star Trek, Minority Report, O Preço do Amanhã, Blade Runner, De Volta para o Futuro entre outras dezenas de exemplos. Desafio enorme. Mas voltemos ao Homo Pixel. Este tipo de humano certamente é tecnológico, buscando ser ultra tecnológico, mais impessoal e tem a paciência mais curta (sobretudo quando jovem, uma vez que as mudanças que espera devem acompanhar não necessariamente o seu tempo natural, mas sim seu desejo imediato). O Homo Pixel é extremamente complexo porque não se compreende direito. E isso é um fato. As inúmeras referências (ou inputs) que lhe atordoam todos os dias, não lhe deixam processar as coisas direito. Ele então perde o foco. Suas emoções verdadeiras são vistas por pouquíssimas pessoas. Isso acontece porque o Homo Pixel se manifesta, se entrega, se comunica por redes sociais, onde ele pode, de forma segura, mostrar quem não é, por vezes enganando-se e a outros também. Esconder-se atrás de um perfil de rede social é uma das mais complexas características desta evolução (?) do ser humano. Mas aqui também reside uma de suas maiores fragilidades. A insegurança de não receber um like, um direct, uma adicionada. Isso mexe com a mente de um Homo Pixel como nunca visto antes. E em uma velocidade atordoante.

Quanto mais ele se digitaliza mais se internacionaliza. O Homo Pixel se orgulha de estar próximo de pessoas de todo o mundo, mas esquece de estar perto de quem está ao seu lado. Conhece tudo sobre seu amigo do outro lado do planeta enquanto não consegue identificar as dores de quem vive próximo fisicamente a ele. A pandemia da COVID-19 veio para apresentar esta nova tipificação dentro da raça humana. Ainda não é possível cravar se os Homo Pixels nos levarão a uma era gloriosa ou ao nosso maior fracasso. Já percebemos alguns movimentos relacionados a eles: a democratização e velocidade da informação (ainda que menos aprofundada), a rápida mobilização de pessoas quando o assunto for de interesse da comunidade Pixel, a mudança das guerras físicas para as cibernéticas, a falta de apreço pela privacidade e proteção de dados, o aumento do intercâmbio cultural (ainda que sem o contato físico), estar, por meio das novas tecnologias, como realidade virtual e aumentada, em qualquer lugar do planeta, entre outras.

Mas esta nova geração também traz consigo complexidades como uma maior preocupação com doenças como a depressão e psicossomáticas, o sedentarismo, o isolamento e solidão cada vez maiores (justamente por entender o virtual como mundo real e colocar as relações interpessoais em risco) e uma busca desenfreada por pular fases de sua vida, privando-se justamente do que nos fez, como espécie, chegar até aqui: a experiência e vivência. 

O Homo Pixel já é uma realidade. Começa o período mais desafiador de adaptação de duas novas gerações, a Milênio e a Alfa, que são as gerações mais conectadas da história da humanidade. Para onde elas nos guiarão? Sêneca, um dos maiores filósofos do império romano já dizia: "Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável". 

As lições do passado sempre serão fundamentais para o chegarmos ao amanhã, de forma segura ou desbravando como descobridores. Ignorá-las não é uma opção.

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