A saída da FORD do Brasil e de quem é a culpa

É um erro impor exclusivamente ao governo Bolsonaro culpa pela saída da montadora do país. Mas também é um erro isentá-lo. Com um ministério da economia que odeia a indústria nacional, o cenário não é positivo.

Workers wearing face masks attend a general meeting with the labor union outside a Ford Motor Co plant, after the company announced it will close its three plants in the country, in Taubate, Brazil, January 12, 2021. REUTERS/Carla Carniel NO RESALES. NO ARCHIVES

Workers wearing face masks attend a general meeting with the labor union outside a Ford Motor Co plant, after the company announced it will close its three plants in the country, in Taubate, Brazil, January 12, 2021. REUTERS/Carla Carniel NO RESALES. NO ARCHIVES

Carla Carniel/Reuters - 12.01.2021

Sim, vamos começar com as verdades. É verdade que as montadores sempre ganharam muito dinheiro no Brasil. Com apoio de bilionários subsídios governamentais sempre entregaram carros de qualidade muito inferior aos produzidos fora do país. Também é verdade que o Inovar Auto (período do governo do PT) trouxe pouquíssimas inovações para o mercado, despejando muito subsídio e cobrando muito pouco das montadoras automotivas. 

Fato é também que apesar do Rota 2030 ter avançado nas questões de desenvolvimento tecnológico em território nacional, deixou de ser mais ousado quanto a eletrificação do setor. Ou seja. Sempre que o mundo avançava no setor automotivo, patinávamos. Sim, também é importante lembrar que os planos da FORD não vinham de hoje. O custo Brasil nunca foi resolvido. Não tivemos até agora uma reforma tributária decente e eficiente. Um problema de décadas. A política dos governos do PT de expansão de páteos fabris também não ajudou muito, uma vez que muitos milhões foram investidos em uma expansão que não foi acompanhada pela situação econômica brasileira. Com um pateo fabril com capacidade para fazer 5 milhões de veículos ano, no melhor período fabricamos 3,5 milhões. Ano passado ficamos abaixo de 2,5 milhões. Percebe a ociosidade do parque fabril há muito tempo? 

Mas confesso que ter uma equipe econômica inoperante e que odeia a indústria nacional ajuda bastante também. Mas esta é a parte final. Antes disso você precisa entender algumas coisas. A nova estratégia da FORD global abre mão do market share (participação no mercado) e prioriza uma empresa mais enxuta e lucrativa. E ponto. É isso. Ir para a Argentina e Uruguai é uma estratégia interessante, pois ainda mantém os benefícios de exportação dentro do Mercosul, pela isenção de tarifas e conseguem subsídios mais vantajosos em países quebrados economicamente, como a Argentina, desesperados pela geração de novas vagas de emprego.

O problema pra o Brasil não se dá apenas pela perda de mais de 5.000 vagas de emprego diretos. Se somarmos os indiretos das fábricas fechadas chegaremos a pelo menos 7.000, chutando baixo. Só que a cadeia produtiva do setor automotivo é enorme. E neste enorme sofrem sobretudo os tiers (camadas desta cadeia produtiva) 2 e 3. Um ótimo exemplo é o setor de autopeças. A Ford era a 4a aempresa do mercado brasileiro em vendas, com 7% do market share (participação de mercado). Parece pouco não é mesmo? Não se você analisar as camadas (tiers) que dependem disso). Áreas do país como o pólo de São José dos Campos em São Paulo vai ter retração e aumento do desemprego. Fato. Empírico. Por isso antes de cair na narrativa do desastre completo ou mesmo do "que vão embora e dane-se", você deve compreender que é um situação ruim sim. E é pior quando pensamos que há décadas não fazemos nosso dever de casa para uma indústria mais moderna e inovadora e que no atual momento o governo está mais perdido que negacionista de Terra plana navegando no oceano.

Os maiores beneficiados sem sombra de dúvidas serão a própria Argentina, e neste quesito é uma boa notícia, pois eles precisam também se levantar economicamente e um player que não foi citado nas análises até agora: o Paraguai. O Paraguai sempre teve a intenção de fortalecer seu mercado exportador de autopeças. Era difícil avançar com o Brasil, ainda que tenhamos parceria comercial, por conta do enorme mercado de autopeças brasileiro e que atendia bem o país. Agora, com as produções indo para Argentina e Uruguai, nossos vizinhos paraguaios podem também desenvolver este mercado importante para eles. 

E ainda tem o FLEX do setor. Para te explicar melhor vou reproduzir uma matéria do finalzinho de 2019, da revista Automotive Business, que diz:

"Atualmente as trocas comerciais do setor automotivo entre os dois países são determinadas pelo sistema “flex”: cada um pode exportar ao outro sem cobrança de tarifas aduaneiras até US$ 1,50 para cada US$ 1,00 que importar. Esta limitação foi ajustada pela última vez em 2016 e vigora até junho de 2020, quando estava prevista a abertura total dos mercados. No entanto, com a nova negociação o flex foi estendido e subirá gradualmente até 2028.

O valor em dólares de exportação isento de tarifas subirá de 1,5 para 1,8 vez o valor das importações a partir de julho de 2020, depois irá aumentando gradualmente, para 1,9 em julho de 2023, sobe para 2,0 em julho de 2025, vai a 2,5 em julho de 2027, atingindo 3,0 em julho de 2028. A partir de 1º de julho de 2029 está previsto o livre comércio de veículos e autopeças sem condicionantes.

Os produtos automotivos respondem pela metade do comércio de bens entre os dois países: em 2018, as exportações brasileiras do setor para a Argentina atingiram US$ 7,5 bilhões."

Com certeza a Argentina deve propor uma discussão futura sobre esta negociação.

Para finalizar, o governo. Bolsonaro não entende que sua equipe econômica já virou piada na praça, do mercado financeiro ao setor produtivo. E pior, ele não percebe que dentro do prórpio ministério da economia ele está longe de ser o presidente da república. Uma equipe que não apresentou em 2 anos um planejamento decente para o setor produtivo. Que vive de discurso positivista tentando incentivar o consumo (não deu e não dará certo neste ano) e que odeia a indústria nacional. Sabe aqueles filmes de piratas, em que hilariamente todos tentam tirar água que está inundando o barco e ninguém rema ou apresenta nenhuma solução? Pois bem, esta é a equipe de Paulo Guedes. O próprio presidente, a bem da verdade, sempre foi muito mais sindicalista que defensor do liberalismo. Guto, e a FORD? Bom, ela é uma empresa de pouco mais de 100 anos e já passou por crises e reestruturações antes. Saberá superar mais esta. É o mercado. Já o Brasil parece um navio fantasma.

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