A tecnologia está roubando você

A tendência é sempre falar sobre os benefícios que a tecnologia nos traz. Uma onda de novos documentários vai na linha contrária. E esta reflexão é fundamental para entendermos o papel da tecnologia em nossas vidas

Um momento de reflexão pode fazer toda a difença quando você precisa se reencontrar

Um momento de reflexão pode fazer toda a difença quando você precisa se reencontrar

Pixabay

Como conservador, defendo a preservação, a transmissão e a melhoria (quando for bom para a sociedade) de culturas e tradições que nos foram passadas de geração em geração. E como apaixonado por inovação, defendo a adoção de tecnologias que possam melhorar a qualidade de vida da sociedade e sua capacidade de integração. Será que este equilíbrio é possível?

Neste ano, uma onda de novos documentários chegou as plataformas de streaming questionando o papel, sobretudo das redes socias, no nosso dia a dia. E para milhões de pessoas, ouvir as pessoas que criaram estas tecnologias têm sido impactante. É certo que o ser humano busca constantemente a evolução. Em todas as revoluções industriais foi assim. A diferença é que esta revolução digital tem uma escala e potencial ainda não conhecidos. Quer ver uma diferença? A eletricidade demorou (dados do site visual captalist, de 2019) 46 anos para atingir 50 milhões de usuários em todo o mundo. As televisões demoraram 22 anos. O Facebook...bom, a rede social mais conhecida do mundo com mais de 2,6 bilhões de pessoas conectadas demorou apenas 3 anos! E os prazos continuam diminuindo a medida que mais pessoas se conectam ao mundo virtual. Atualmente temos 57% da população mundial conectada à internet. Mas voltemos ao "roubo" que falo no título deste texto.

Um dos papéis da comunicação digital é diminuir o intervalo de contato entre as pessoas. Podemos falar também de você poder fazer amigos em qualquer lugar do mundo sem ao menos pisar em outro país. Aprender novas línguas, ajudar pessoas em tempo real, fomentar uma sociedade mais unida. Ter serviços que possam te atender com mais praticidade, velocidade e comodidade. Os objetivos por trás da criação destas novas tecnologias, em sua maioria absoluta, sempre foram bons. Lembrando que toda tecnologia é dual, ou seja, pode ser boa ou ruim. Você escolhe. E aí começam os problemas. Ao mesmo tempo que você se aproxima de uma pessoa do outro lado do mundo pelas redes sociais ou aplicativos, você tende a se afastar de quem está mais próximo. Conhece a vida toda do astro do seu programa favorito mas não sabe nada do seu colega de trabalho ou mesmo quem vive com você. Não te parece no mínimo estranho isso? Com a tecnologia se propondo a fazer tudo por você, sua memória está pior, sua coordenação motora também e o uso das suas capacidades cerebrais provavelmente não está avançando muito. Quer um exemplo? Tente, você, ou seus filhos principalmente, escrever uma carta a moda antiga, de duas ou três folhas frente e verso. Provavelmente sua mão terminará doendo. Prova do seu abandono de uma das suas capacidades naturais, a motora. Vamos além. Tente lembrar cinco, apenas cinco números de telefone de amigos ou familiares ou datas de aniversário dos seus principais amigos. Não conseguiu? Não lhe parece óbvio o por quê? Sugiro que você veja um filme muito interessante que abordava estes assuntos anos antes dos atuais documentários: Wall-E. Vai se surpreender. Se já viu, reveja. 

Existe outro "roubo" acontecendo neste exato momento. Com todos nós. A sua informação, seu comportamento e suas preferências (inclusive as mais íntimas). Por meio de algorítmos preditivos, as redes sociais conseguem "prever" o que vc pensa e o que fará. Você pode alegar: "E daí Guto. Não tenho nada a esconder e isso para mim é bom, porque não preciso mais procurar nada. Simplesmente chega até mim." Só que é mais do que isso. Não só chega a você o que você quer, mais sim o que você ACHA que quer. As novas tecnologias não só descobrem seu padrão como CRIAM um novo padrão para você. Com uma diferença. Não te perguntam se você quer ou não. Apenas te fazem de fantoche. Uma frase que me impactou muito em um dos documentários e que eu já havia ouvido anos atrás mas que havia se perdido para mim foi: "Se você não paga pelo produto, você É o produto". Alguém paga para ter a sua atenção e por vezes manipular suas escolhas. 

Mas vou terminar falando do maior "roubo" que está em andamento. A tecnologia, se não compreendida, rouba a sua HUMANIDADE. Sua SANIDADE. Seu EU. Não por acaso, a depressão, a ansiedade e o suicídio explodiram entre os jovens, sobretudo os da geração Z. Isso sem contar o sentimento de solidão (mesmo ultraconectado) e o alcoolismo em alguns países (sim, com relação direta ao vício digital). E aqui faço referência a um moleque (forma que me refiro a ele positivamente) que admiro demais, que me inspira e que aconselho que você conheça e siga: o querido Murilo Gun. Murilo tem feito há alguns anos uma transição interessante de ser observada de um mundo louco para um mundo de mais amor, observação e reconecção com o simples e o humano. E tudo isso sem abrir mão da tecnologia. Segue o cara. A busca por ser "curtido", "seguido", "comentado" nas redes sociais virou padrão de status ou de abandono. Você posta uma foto no stories do Instagram e quase que imediatamente fica abrindo o app para ver se alguém te viu, ainda que por milissegundo. E acreditem, isso é mais perigoso do que parece. Nas mesas de jantar todos olham para os celulares (inclusive eu, confesso.). Quando você viaja, você não "desliga". Parece que algo sempre vai acontecer e você precisa estar lá, virtualmente, para se satisfazer por poucos segundos. Precisa estar em várias redes sociais, afinal, presença virtual é fundamental (só que de fato isso não significa absolutamente nada para 98% da população mundial. Cumprimenta as pessoas no aniversário, no Natal, na Páscoa, Ano Novo, Dia das mães, pais e crianças...tudo pelas redes sociais. E se sente bem. Mesmo sabendo que está abrindo mão do abraço, do beijo, da conversa, do toque e do olho no olho, você se sente bem! Nada me tira da cabeça que o mundo digital, de diversas formas, se tornou igual ou mais viciante e com efeitos colaterais piores do que diversas drogas conhecidas. Aliás, este distanciamento e problemas psicológicos pelo que o digital rouba de você te levam, sem a menor sombra de dúvidas a várias outras drogas. É um fato e não uma suposição. Vou pular outros problemas de saúdes derivados da horas que você passa em frente ao celular, por dias seguidos, como o glaucoma por exemplo.

Nunca o exercício e o conhecimento das nossas capacidades emocionais foram tão importantes. Se você não consegue estar longe das redes ou desconectado da tecnologia, a verdade é que você precisa de ajuda. Afirmo isso sabendo que, sobretudo em redes sociais, tranquilamente mais de 70%, 80% das pessoas se mostram o que não são no mundo real. E talvez até peçam ajuda por elas, mas tudo se tornou tão raso, tão superficial, que você passa batido e não reconhece mais os sinais. E esta bolha ainda vai te custar caro. Reconecte-se com o mundo real, com a natureza e as pessoas. Reencontre o prazer das coisas simples e faça do meio digital uma ferramenta positiva. Tem gente que usa o dinheiro e gente que é usada pelo dinheiro. Atualizando, temos gente que usa a tecnologia e as redes sociais e gente que é usada. Já pensou nisso? Comece seu detox agora. Bom FDS. Sextou ;-)

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