O Conservador Tecnológico As lições da vitória de Joe Biden para o Brasil e Jair Bolsonaro 

As lições da vitória de Joe Biden para o Brasil e Jair Bolsonaro 

Muito além de uma eleição com um sistema complexo de votação, a vitoria de Biden pode indicar uma nova rota para a política brasileira em 2022. E é bom abrir bem os olhos.

A imagem de dois estilos diferentes de agir. O radicalismo de Trump e a ponderação de Biden

A imagem de dois estilos diferentes de agir. O radicalismo de Trump e a ponderação de Biden

Montagem/R7 - Tom Brenner/Reuters

Enquanto escrevo este texto, aguardo a confirmação da vitória de Joe Biden sobre Donald Trump para a presidência da maior potência econômica e militar do planeta, os Estados Unidos da América. 

Para um observador não muito atento, muitas lições podem passar em branco neste momento. Primeiro vamos falar sobre Conservadorismo. Obviamente as pessoas me questionam do por quê, eu, como conservador e liberal econômico, apoiar a eleição de Biden. A resposta é simples. Considero Biden mais conservador do que Trump. Mais uma vez, uma pessoa desatenta pode pensar: "Mas Guto, o Biden é do partido Democrata, progressista e de esquerda, enquanto o Trump é do partido Republicano, conservador e de direita. Você enlouqueceu?" Na verdade não. Sim, discordo de algumas ideias de Biden, mas do ponto de vista clássico, quando você compara comportamento, respeito à história, defesa da família, trato interpessoal, forma de tomada de decisão e mais uma vez, respeito ao cargo e a sua liturgia, é impossível defender Donald Trump como conservador. 

Ben Shapiro, um dos maiores oradores sobre Conservadorismo do mundo e ex presidente da juventude do Partido Republicano americano disse certa vez: "Donald Trump é seguramente uma das maiores ameaças ao Conservadorismo que conheço." Por que ele disse isso? Porque conservadores são conhecidos (ao menos dentro das doutrinas clássica e moderna - Veja Angela Merkel e Boris Jonhson), pela PRUDÊNCIA e CETICISMO. E estas não são características do ainda presidente americano. Acrescente-se ainda a verborragia e o flerte com o populismo e o radicalismo. O que nos leva à conclusão de que sim, mesmo estando no partido Democrata, até mesmo parte dos republicanos americanos reconhecem em Biden um modelo mais seguro para governar os EUA. E segurança é conservadorismo. Dito isso, você deve se perguntar que raios isso tem a ver com o Brasil e o presidente Bolsonaro. Vou explicar.

Bolsonaro, assim como Trump, também não é um conservador. Sim, é verdade que parte de suas agendas atendem às discussões conservadoras no país, mas muito mais que isso, elas atendem a um chamado do populismo e do radicalismo. O pouco apreço pelas instituições, a mesma verborragia, a negação da ciência, o apoio a grupos ideologicamente extremos e o discurso ancorado mais em promessas que em resultados fazem de Bolsonaro uma cópia de Trump, só que sem dinheiro, sem a influência global e o poderio militar e sem a história pessoal vencedora do atual presidente americano. E é aqui que as lições podem beneficiar ou se tornar a ruína de Bolsonaro em 2022. Então vamos lá.

Assim como Trump há dois anos, Bolsonaro encerra a metade de seu mandato com boa popularidade. Ainda que os resultados econômicos estejam distantes da realidade do que o país precisa, o presidente da república goza de boa aceitação popular. E isso, em meio a uma pandemia, recorde de desemprego e um governo que não consegue aprovar todas as reformas e que está com seu orçamento comprometido quase que totalmente para 2021 e talvez 2022. Porém, insistir em alguns comportamentos, fará, e afirmo isso dois anos antes, uma vez que falar com a situação dada em 2022 seria covardia da minha parte - mas muitos consultores fazem isso, acreditem, fará Bolsonaro desintegrar até sua reeleição (considerando que ele chegue até a reeleição). Por isso, é importante que o presidente e o Brasil saibam:

1- Discursos de conflito, incitação à violência e mesmo desrespeitosos ESGARÇAM O CAPITAL POLÍTICO muito rapidamente. As pessoas, em geral (conservadores e progressistas), buscam paz e um ambiente político que respeitam e admiram. 

2- Parecer descolado (assim como Obama) como presidente da República não significa jogar a liturgia do cargo no lixo (como faz Bolsonaro). O respeito à instituição da presidência da república é fundamental para a melhor representação do país e do cidadão número 1. Bolsonaro usa e abusa de tentar parecer popular, acreditando que isso o aproxima da população. Ele erra. Pelo simples fato de que se o seu governo não decolar de uma vez por todas e apresentar resultados reais, será difícil sair de moto para comer um pastel (Obama ia ao Starbucks) se a população não conseguir comprar arroz e carne. Aqui a lição é: O TEATRO NÃO SE SUSTENTA sem resultados econômicos.

3- As maiores cidades tendem a ser mais cosmopolitas e por consequência mais tolerantes. Trump massacrou Biden majoritariamnete no interior, mas sofreu derrotas incríveis nas capitais de estados chave. Bolsonaro terá que cuidar muito bem deste público do interior do país. Porém, existe um risco nesta equação. Fortalecer demais um agro de commodities, que paga pouco imposto e vende muito a um preço menor e esquecer de evoluir o país tecnologicamente, investindo em manufaturados, abandonando a indústria (o que já acontece hoje pela equipe econômica) e destruindo um setor que ainda hoje é responsável por mais de 25% da arrecadação de impostos do governo federal. 

4- Táticas NEGACIONISTAS e IDEOLOGICAMENTE RADICAIS não são mais toleradas pela população. Comprovadamente o eleitor percebe esta loucura muito rapidamente e isso afeta diretamente o campo de avaliação de COMPETÊNCIA do gestor (no caso o presidente da república). Trump certamente perdeu centenas de milhares de votos com o negacionismo da COVID 19. Bolsonaro comete o mesmo erro. Literalmente o mesmo.

5- Falta de originalidade. Em 2022, uma boa parcela da geração Z (nascidos a partir de 1996) passará a votar. Esta é uma geração que percebe quando o candidato é "fake". E ela será despertada a confrontar Bolsonaro (assim como movimentos como Black Lives Matter nos eua) caso este permaneça com seu comportamento impositivo e agressivo. Não ter papas na língua não significa buscar confronto todos os dias. Em contrapartida, esta geração tem um poder de movimentação e replicação de mensagem nunca visto na sociedade. E isso pode ser um fator decisivo contra quem está no poder.

6- O peso do partido político. Nos EUA, parte do partido republicano fez campanha declaradamente contra Donald Trump. E com a vontade do atual presidente em judicializar a eleição, os republicanos já deram sinais de que não embarcarão na sanha megalomaníaca de Trump. Uma analogia pode ser feita com Bolsonaro (ainda sem partrido) e o apoio mambembe que mantém nas forças armadas, que são extremamente bem avaliadas mas já perceberam que devem colocar um ponto na relação política com o presidente ou mesmo assumir sua tutela.

7- Por fim, mas não menos importante, vem o respeito às instituições. E nisso Joe Biden deu aula em 2020. A eleição americana terminará com todos tendo a certeza de que caso Trump vencesse, Biden cumpriria o ritual de ligar e reconhecer a derrota. Faz parte da liturgia, é um ato de educação e respeito com o sistema. Bolsonaro, assim como Trump, parecem ser maus perdedores, vez por outra invocando o apoio do exército como seu guarda costas ou ofendendo as instituições. E o presidente brasileiro já provou da opinião de seu povo, que disse em voz alta que valoriza sua democracia. 

Se Bolsonaro quiser chegar ao final do mandato e em chegando, ter chances de reeleição, deve se inspirar mais em Biden do que em Trump. Deve estudar mais, se preparar verdadeiramente para ocupar uma cadeira que hoje ainda parece grande para si e buscar se tornar um exemplo e não um garoto que briga na rua sempre que não é atendido ou que é provocado. Pode-se dizer que Trump perdeu para si mesmo. E Bolsonaro sempre quis ser Trump. Não é uma boa ideia. 

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