O Conservador Tecnológico Bolsonaro cresce depois de saída de Sergio Moro e enquadrada em Guedes

Bolsonaro cresce depois de saída de Sergio Moro e enquadrada em Guedes

A guinada do discurso de campanha para a realidade política fez com que Bolsonaro decidisse parar de terceirizar decisões. Com o fim do triunvirato, o presidente caminha para a reeleição como presidente de fato

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Bolsonaro entendeu que que a caneta Bic tem um único dono
 Foto: Isac Nóbrega/PR

Palácio do PlanaltoSeguir Bolsonaro entendeu que que a caneta Bic tem um único dono Foto: Isac Nóbrega/PR

Isac Nóbrega/PR - 15.06.2020

Já escrevi outras vezes que Bolsonaro começou a governar no sistema de triunvirato. A desconfiança em relação à sua capacidade de gestão fez com que os assuntos mais técnicos e de credibilidade se virassem para o ministro da Economia Paulo Guedes e o ex ministro da Justiça Sérgio Moro. Bolsonaro, de fato, estava esvaziado em poder. Era apenas um porta voz. Mas política não é um jogo cartesiano e a história mudou.

Quando da saída de Sérgio Moro, apenas quem não conhece Brasília ou só vive do mercado financeiro acreditava que Paulo Guedes ainda teria poder. Os votos não estão na macroeconomia ou nos ajustes fiscais. Isso certamente é positivo, quando é feito de verdade e não só no discurso, mas o que move a base de Bolsonaro são o que se chama comumente de "povão". Sim, a mesma base de Lula no passado hoje está com o Presidente da República. Os votos estão na obras, no auxílio emergencial e nos programas assistivos. Prova de que o Brasil está muito longe da realidade de país em desenvolvimento que muitos querem vender ou acreditar, ainda que tenhamos condições disso. O Brasil, país continental e com riquezas naturais (ainda) absurdas, não conseguiu melhorar a distribuição de renda e mais do que isso, universalizar uma educação de qualidade. Em resumo, queiram ou não, somos um país relativamente pobre. Por pura opção nossa. 

No momento em que Bolsonaro percebeu que a saída de Sérgio Moro não abalou a sua popularidade como muitos imaginavam, ele percebeu que não precisava mais dividir o poder com o sobrevivente do triunvirato inicial. Não existia mais a dependência de Paulo Guedes, o famoso posto Ipiranga e até então super ministro. O presidente resolve então dar uma guinada para o seu sonho desde que sentou na cadeira: seguir o desenvolvimentismo da década de 60 e 70, mesmo período aliás, do milagre econômico chileno, realização da escola de Chicago daquela época, e que Guedes defende até hoje (mesmo não sendo mais a tese atual desta escola econômica). Ministros como Tarcísio e Marinho começaram a ganhar mais proeminência e Guedes foi empurrado para a periferia do Planalto (ainda que uma vez ou outra seja chamado para um churrascão). Não se deve julgar se esta guinada na estratégia está correta ou não ainda. Bolsonaro tem até 2022 para apresentar resultados, mas fato é que pouquíssima gente no Planalto respeita Guedes como antes. Talvez nem isso. A debandada de pessoas fortes de sua equipe mostram claramente um questionamento interno e expõe a fraqueza do Ministério da Economia, carente de liderança até aqui. Vamos explicar:

Com as saídas de Joaquim Levy e Marcos Cintra, aprendemos que Guedes não faz muita questão de proteger os que pensam igual a ele e lhe são leais. Nos dois casos, os subordinados vocalizaram os pensamentos de Guedes e mesmo assim foram jogados aos leões com a observação impassível do ministro liberal. Caio Megale, Mansueto Almeida e Rubem Novaes alegaram motivos pessoais (uma praxe em Brasília quando não se quer falar o verdadeiro motivo da saída - é o status quo protegendo o status quo). Marcos Troyjo e Rogério Marinho saíram para ocupar cargos melhores. O segundo inclusive é hoje considerado inimigo número 2 de Guedes, apenas atrás do presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia. Bolsonaro começou a perceber tarde que Paulo Guedes e equipe falam muito e entregam pouco. De vazamentos para a imprensa (sobretudo jornais do grupo Globo no RJ - basta ver o histórico de notícias que saíram antes nos veículos de lá), passando pelo pecado da vaidade, praticado por alguns secretários de Paulo Guedes, que inclusivem pedem para ser chamados de ministro (veja o absurdo) e chegando ao crescimento em "V" (que reafirmo desde o início da pandemia, NÃO VIRÁ), a fragilidade ficou cristalina. Aliás, o mercado financeiro, maior fiador de Paulo Guedes, já há algum tempo começa a dar sinais de fim de lua de mel. O setor produtivo (sobretudo a indústria) já sabe que foi enganado pelo discurso professoral da pasta da economia.

Coincidentemente (ou não), quanto mais Guedes some, mais Bolsonaro cresce. Pelos próximos dois anos é o presidente quem dará as cartas de fato pela primeira vez em seu mandato. Quanto mais a verdade sobre o ministério da Economia aparece, mais os que acreditam em Paulo Guedes desaparecem em progressão geométrica. A credibilidade de Guedes se foi. O melhor caminho para o ministro seria fazer o mesmo que seu ex secretário especial, Salim Mattar, que após sair do governo, um mês depois viu seu império multiplicado, pela união de duas gigantes do setor de locação de automóveis. Sem dúvida, um caminho mais justo e honroso pela sua história de empreendedor. Mas Guedes não fará isso por vaidade. Unicamente vaidade. Quer que Bolsonaro fique com o ônus de sua saída. Assim como pensou Moro (só que este teve coragem de pedir a conta). Mas a pergunta que fica é: E se não for um ônus? 

Na corte atual temos apenas um comandante, que se chama Jair Bolsonaro. Paulo Guedes e equipe se tornaram os bobos da corte, brigando por espaço e poder enquanto todos riem nos bastidores. O triunvirato acabou. E isso, queira você ou não (de novo), é ótimo para o Presidente da República e seu plano de reeleição.

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