Bolsonaro erra ao falar de Cristofobia

O discurso do presidente Bolsonaro despertou algumas curiosidades, sobretudo aos conservadores mais atentos. A maior delas, talvez, tenha sido a vinculação de política e religião. Isso está certo?

Palácio do Planalto
22/09/2020 Gravação de discurso para a 75ª Assembleia Geral da ONU
(Brasília - DF, 22/09/2020) Presidente da República Jair Bolsonaro, durante gravação de discurso para a 75ª Assembleia Geral da ONU.

Foto: Marcos Corrêa/PR

Palácio do Planalto 22/09/2020 Gravação de discurso para a 75ª Assembleia Geral da ONU (Brasília - DF, 22/09/2020) Presidente da República Jair Bolsonaro, durante gravação de discurso para a 75ª Assembleia Geral da ONU. Foto: Marcos Corrêa/PR

Marcos Corrêa/PR - 22.09.2019

Vamos direto ao ponto. O discurso do presidente Bolsonaro na abertura da Assembléia Geral da ONU em 2020 mostrou um avanço na forma, em relação ao do ano passado. O tom agressivo diminuiu, o que foi bom. Mas parece que aumentaram as informações não comprovadas, e dados não factuais, o que é muito ruim depois de quase metade do mandato. Mas o que mais me chamou a atenção, foi o pedido para que as nações combatam a Cristofobia, ou em outras palavras, a aversão ou perseguição ao cristianismo. Do ponto de vista de um chefe de estado, sobretudo no nosso caso, não me parece que esta proposta de combate internacional pró cristianismo, mostre ao mundo como o Brasil vai evoluir.

Desde a campanha, o Presidente da República tenta fazer vinculações de suas mensagens com temas mais conservadores, sobretudo os ligados mais ao campo religioso. Mas desta vez, acredito, a fuga da realidade se mostrou mais clara. Apesar de ter acertado ao dizer que o povo brasileiro é conservador, Bolsonaro tem, constantemente, misturado alhos com bugalhos. Vou explicar.

Eu sou cristão. Temente a Deus. Tento, dentro da minha enorme imperfeição, seguir os ensinamentos e mandamentos básicos que Ele nos deu, sobretudo, o que para mim é o maior de todos: "Amai-vos uns aos outros". Mas vamos lá. Uma coisa é ter um discurso conservador. Outra coisa é ser um conservador na prática. Apesar da base de sabedoria judaico cristã fazer parte da construção do conservadorismo ocidental, ao pé da letra, conservadorismo não é o mesmo que religião. O conservadorismo é a defesa da prudência, do ceticismo, da razão, da ciência e empirismo, respeitando a base moral que forma ( e que em sua maioria vem sim dos ensinos seculares religiosos), a nossa sociedade. Dentro desta base moral, está, obviamente, no caso brasileiro, o cristianismo. Mas é importante lembrar que existem outros países conservadores sim, mas que não tem o cristianismo como religião base. No Japão, o Budismo e Xintoísmo. Na Índia, o Hinduísmo. Em Israel, o Judaísmo. Na China, o Confucionismo. Nos países árabes, o Islamismo por exemplo. 

O Brasil é de fato um país predominantemente cristão. Segundo o último senso do IBGE sobre o assunto, mais de 85% da população brasileira se declara cristã. Portanto, só este dado já faz a parte do discurso do Presidente da República que alerta sobre a Cristofobia não ter muito sentido. Ao menos não em território nacional. E ainda que ele esteja alertando sobre a religião cristã não ser aceita ou ser perseguida em outros países, a declaração soa bizarra, pois parece levantar uma cruzada (completamente desnecessária na forma apresentada) em relação a outros povos que não comungam destes ensinamentos. O que poderia, inclusive ser considerado uma afronta aos praticantes de outras religiões no Brasil. Um exemplo claro seria Israel. O judaísmo é a mais antiga das religiões abraâmicas e é a principal religião em Israel. Existem cerca de 15 milhões de judeus em todo o mundo e a religião é praticada desde meados 500 A.C. Devemos avisá-los que devem abrir mão da sua crença pelo cristianismo? Sob pena do Presidente Bolsonaro retaliá-los? Neste caso, de forma pragmática, faltou e falta a Bolsonaro compreender os conceitos básicos do conservadorismo clássico, da laicidade e do laicismo.

Laicidade é uma característica dos Estados não confessionais que assumem uma posição de neutralidade perante a religião, a qual se traduz em respeito por todos os credos e inclusive pela ausência deles (agnosticismo, ateísmo) - este é o caso do Brasil, com diversas previsões na Constituição de 1988.

Já o Laicismo é igualmente não confessional, refere-se aos Estados que assumem uma postura de tolerância ou de intolerância religiosa. Países que não permitem outras religiões ou promovem perseguições a estas, sejam quais forem, são Estados laicistas. Em nossa Carta Magna, no preâmbulo, observarmos o seguinte texto: "Promulgamos, sob a proteção de Deus (negrito deste autor), a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil”. Apesar de o texto citar explicitamente o Deus cristão, isto está longe de criar uma proibição a outras religiões e crenças de atuarem no país. Apenas no preâmbulo, o Deus cristão é citado. E isso certamente se deve a um reconhecimento da importância dos ensinamentos de base moral cristã e conservadora para a formação da sociedade brasileira. A partir daí, a prória Constituição Federal diz, apontando para a laicidade:

Art. 5º ...

(...) VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

E em outro artigo, a Constituição Brasileira estabelece limites para o relacionamento entre Estado e religião. Veja:

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público; (g.n.)

Volto a dizer. Quando Bolsonaro diz que o Brasil é um país conservador, ele está correto. O brasileiro preza a família e as tradições, entre outras coisas. Mas seu pensamento e declarações vão no sentido contrário, uma vez que  ele usa, e repito, usa uma pauta conservadora legítima de respeito às instituições do passado, como as religiosas e de construção moral, para fazer disso a base de um discurso mais populista e emocional do que conservador de fato. Em verdade, o discurso do presidente é voltado mais ao conservantismo do que à doutrina do pensamento dos conservadores clássicos. Me lembro de um respeitado e conhecido homem da fé no Brasil que disse certa vez que a religião “é a criação satânica mais nefasta da face da Terra” porque transforma a fé “em território privado”. Em seu texto ele continua: "Religião separa pessoas, cria atritos e divide lares e casais. O religioso é apaixonado e, às vezes, até fanático, porque usa a fé sem o uso da inteligência, da razão." O mesmo vale para um político que faz uso deste tema para sustentar seu discurso.

Não existe Cristofobia coisa alguma. Até porque hoje, das mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, 6 bilhões são religiosas e o Cristianismo responde por 2,4 bilhões de seguidores, sendo a maior religião do planeta. Logo na sequência vem o Islamismo com 1,8 bilhão de pessoas e o Hinduísmo com 1,1 bilhão de seguidores. Pode-se debater que há uma mudança em andamento e até mesmo um "ataque" de outras religiões tentando enfraquecer o cristianismo. Mas este é um outrooooo assunto. Qualquer dia destes abordarei ele.

A grande verdade, e que é incômoda aos conservadores de verdade e liberais (nos quais eu me incluo), é que perdemos mais uma vez a oportunidade de apresentarmos resultados reais positivos ou mostrar ao mundo o que o Brasil pretende ser nesta nova era pós pandemia. Cada vez que que, apenas combatemos, enfrentamos, criamos cismas e reagimos, deixamos de conquistar espaço, credibilidade, investimentos e geração de trabalho e emprego. Quando o presidente acertar devemos sim aplaudir. Este é o papel de um cidadão de bem. Não importa quem seja o Presidente da República. Mas pelo segundo ano seguido, mostramos ao mundo que estamos em um ciclo interminável de nós contra eles (que começou com o ex presidente Lula diga-se). Hoje, salvam-se as políticas do ministério da Agricultura com Tereza Cristina e uma parte do Ministério de Infraestrutura com Tarcísio Gomes. É pouco. Muito pouco para 2 anos de mandato.

A Cristofobia é um teatro mal encenado. Um discurso sem pé nem cabeça. Deveríamos mesmo é ter fobia da falta de planejamento e execução, da fuga de investimentos. Precisamos de menos conflito, menos bagunça e mais pragmatismo, prudência e resultados. Nada supera o trabalho.

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