Jair Bolsonaro

Guto Ferreira Carta aberta aos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica

Carta aberta aos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica

A politização das Forças Armadas representa desafio à democracia brasileira. A duvida está em se este é um movimento institucionalizado nas FFAA ou se é apenas falta de conhecimento de seus comandantes.

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31/03/2021 Encontro com os novos comandantes das Forças Armadas
(Brasília - DF, 31/03/2021) Encontro com os novos comandantes das Forças Armadas o Almirante de Esquadra Almir Garnier Santos, o General de Exército Paulo Sergio Nogueira e o Tenente Brigadeiro do Ar Carlos de Almeida Baptista Junior.

Foto: Marcos Corrêa/PR

Palácio do PlanaltoSeguir 31/03/2021 Encontro com os novos comandantes das Forças Armadas (Brasília - DF, 31/03/2021) Encontro com os novos comandantes das Forças Armadas o Almirante de Esquadra Almir Garnier Santos, o General de Exército Paulo Sergio Nogueira e o Tenente Brigadeiro do Ar Carlos de Almeida Baptista Junior. Foto: Marcos Corrêa/PR

Marcos Corrêa/PR - 31.03.2021

Apesar de um pouco extenso, recomendo que leiam.

Caros comandantes da Força Aérea Brasileira, Tenente-Brigadeiro do Ar Carlos de Almeida Baptista Junior, da Marinha do Brasil, Almirante de Esquadra, Almir Garnier Santos e da nossa força terrestre, o Exército Brasileiro, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira. Como conselho, já de início, recomendo que façam uma profunda reflexão do seu papel na história atual do país.

Ao longo dos anos, desde o período de redemocratização do Brasil, as Forças Armadas travam importante desafio interno na reconstrução de imagem pós 64 e preservação de seus valores mais básicos. Até recentemente tinham elevadíssima aprovação junto à população brasileira. Aprovação justificada. Em locais distintos do território nacional, as Forças desempenham papel importante, que vão desde a proteção do nosso território até função social, levando apoio às comunidades distantes e logisticamente prejudicadas em todo o Brasil. Além da óbvia missão primária, desempenham outras acessórias, como construção de pontes e estradas, envio de medicamentos e médicos, apoio nas telecomunicações e inteligência entre outras. Mas parece, hoje, que vocês estão no caminho da esquizofrenia de comando. Explico.
Obviamente, as Forças Armadas devem responder ao presidente da República, seu comandante maior. Ainda que hoje, este comandante maior seja um dos maiores sabotadores das próprias FFAA. Sua história demonstra isso. Propunha quebra de hierarquia, motins, greves, revoluções internas e por isso mesmo, foi empurrado – não escondam esta verdade, para a reserva, como capitão. A bem da verdade, o caos e a anarquia que prega Bolsonaro, nunca teve a ver com os ideias e valores das Forças Armadas. Vocês sabem disso. Não é que Bolsonaro teve uma vida amoral. Esta foi IMORAL mesmo.
Fico pensando em como o Marechal Castello Branco estaria envergonhado de saber como as FFAA estão sendo comandadas por alguém perturbado e desequilibrado mentalmente e moralmente corrompido. Me lembro de seu busto na entrada da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro, onde se lê:


“O oficial de estado-maior é um renovador e um criador. Deve lutar contra o conservantismo, tornando-se permeável a ideias novas, a fim de que possa escapar à cristalização, ao formalismo e à rotina.”


Imagino também o desgosto do primeiro Brigadeiro do Ar de nosso país, Lysias Augusto Rodrigues, vendo, de onde estiver, o atual comandante da aeronáutica (perdoe-me pela sinceridade) ameaçando a democracia com arroubos verbais na defesa de um louco. Algo está errado. Algo está muito errado. Talvez algo esteja corrompido.

Nos últimos dois anos e meio, as Forças Armadas saíram de instituição preservada e reverenciada, para algumas páginas policiais e políticas, com acusações de envolvimento em negócios espúrios, que caminham para a comprovação de casos de corrupção endêmica no governo Jair Messias Bolsonaro, o capitão rebelde, já chamado, nas ruas, de “ladrão de vacinas”.

Devemos generalizar as Forças Armadas? Obviamente que não. A maioria esmagadora é boa, faz o bem e acredito eu, seja honesta. Presta um SERVIÇO relevantíssimo ao país. Precisa inclusive ter mais atenção da classe política para que possa fazer seu trabalho ainda melhor.

Mas o silêncio das patentes mais altas, os mais estrelados, em relação à participação de oficiais da ativa no governo, em casos suspeitos de corrupção e imoralidade é ensurdecedora. Vergonhosa. Deprimente. Proteger usurpadores dos valores mais nobres das FFAA não é papel das Forças Armadas. Ao contrário. Deve ser combatê-los, nobres comandantes. Usar da patente para referendar um corporativismo escroto e podre não é papel das Forças Armadas nem deveria ser motivo de orgulho para seus oficiais, sobretudo vocês, comandantes, líderes que deveriam ser espelho de nobreza de valores para toda a tropa. Inclusive na aplicação dos dispositivos disciplinares militares.
Ao menos é assim que sempre imaginei a Marinha, Aeronáutica e Exército. Talvez eu e milhões de brasileiros estejamos enganados. Será? Seria uma decepção tremenda.

Recomendo fortemente aos comandantes a leitura, se já não leram (completa se possível) do livro O SOLDADO E O ESTADO, TEORIA E POLÍTICA DAS RELAÇÕES CIVIS E MILITARES, de Samuel P. Huntington. Livro que tenho a certeza, está nas bibliotecas da Marinha, Aeronáutica e Exército. Eu li as 529 páginas e salvo se Huntington estiver errado, inclusive com esta literatura recomendada nas escolas do oficialato brasileiro, estamos em um caminho bem, repito, bem errado, do ponto de vista estratégico, moral e ético.

As Forças Armadas deveriam fazer parte de um norte confiável para a democracia. Deveriam envolver-se o mínimo possível com a política, salvo nos temas que lhe são inerentes. As FFAA e sobretudo vocês, seus comandantes, não deveriam acobertar incompetentes e canalhas, que usam a farda para se proteger atrás de sigilos processuais de dezenas de anos. Não se trata de responder ou não ao presidente da república. Enquanto houver sanidade, deve-se SIM cumprir seu papel. Mas NUNCA se envolver nesta podridão travestida de moralidade e suposto conservadorismo que vemos hoje no país.

Aliás, aqui, escrevo ao ministro da Defesa Walter Braga Netto. Neste texto não escrevi diretamente ao senhor pelo simples fato que acredito, sua consciência, já deva estar fazendo reflexões mais profundas. Se não estiver, a história fará por você. 

Infelizmente, alguns oficiais não entenderam que a lama deveria ser apenas para TREINAMENTO e não para ENVOLVIMENTO. As Forças Armadas são compostas por pessoas. E por mais graduadas que sejam, ainda assim, podem ser corruptíveis, a começar pelo comandante em chefe da nação. A questão está no quanto vocês farão valer o que pregam verbalmente. Ainda há tempo de demonstrar grandeza moral, punir vagabundos e canalhas e preservar a história, a imagem e os objetivos das Forças Armadas Brasileiras. Façam esta reflexão. Com urgência de preferência. Brasil.

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