Guto Ferreira O abandono do Governo Federal com o estado de Roraima

O abandono do Governo Federal com o estado de Roraima

Esperava-se que o governo federal entendesse a importância da região Norte do país. Não apenas para a soberania nacional, não apenas pelo Nióbio. Não apenas pelas bravatas. Mas sim pelo desenvolvimento do país. Erramos.

A cidade de Pacaraima, fronteira brasileira com a Venezuela.

A cidade de Pacaraima, fronteira brasileira com a Venezuela.

Joédson Alves / EFE - 23.2.2019

Há alguns meses escrevi que a região Norte do país deveria ser vista como a nova era de oportunidades do Brasil. Escrevi também que nutria esperanças de que o atual governo conseguisse levar para os Amazônidas o desenvolvimento e a importância devida, já que foram abandonados nos últimos 40 anos pelas políticas públicas irradiadas de Brasília. Mas parece que errei.

O caso acontecido no Amapá já nos deu o choque de realidade que precisávamos. Um estado sem luz. Um povo sem emprego e abandonado. Sim, por todos. Do Presidente da República ao presidente do Senado. Da empresa licitada aos governos locais. Do judiciário aos demais irmãos brasileiros de todas as regiões. Falamos da eleição americana como se nossa vida dependesse disso e simplesmente ignoramos nossa própria terra. Poético e trágico. O presidente Bolsonaro, em uma atitude pequena e atordoado pela vitória de Biden contra Trump embarcou apenas 17 dias depois do estrago para ver a situação in loco. Foi recebido pela sua claque no aeroporto e vaiado e xingado nas ruas da capital Macapá. Aprendemos com isso? não. Pode ser que muito em breve tenhamos outro caso: Roraima. Vou explicar antes que aconteça.

Talvez você nunca tenha ido a este estado. Talvez nem saiba o que eles fazem lá. Com certeza você não sabe que a pista do aeroporto de Roraima é a maior do Brasil em autonomia. Com certeza não sabe que eles estão, de avião, há apenas 4 horas de Miami, no sul da Flórida (EUA), o que poderia fazê-los ser, para o Brasil, uma das mais importantes rotas logísticas de exportação do país. Mas não podem. Sabe por quê? Porque desde 2018 está parado um projeto para internacionalizar a área de cargos do aeroporto da capital Boa Vista. Como assim? Por incompetência das autoridades federais. Sabe como sei disso? Fui eu quem criou o projeto. Talvez você também não saiba que em Roraima, devido sua localização privilegiada, temos a maior produtividade em quantidade de oleo de soja extraído  por grãos. É lá também que está uma importante reserva indígena, a Raposa Serra do Sol. O estado também é um dos principais produtores de tambaqui e pirarucu do Brasil. Nem vou citar aqui as outras maravilhas de suas florestas, como o açaí por exemplo. Mas quero aqui deixar um alerta. A mesma tragédia do Amapá está próxima e pode acontecer em breve em Roraima. Vamos lá. Em 2017, uma portaria do Ministério de Minas e Energia determinava que a Roraima Energia deveria manter óleo diesel suficiente para abastecer as usinas térmicas por no mínimo 8 dias. Há meses este volume não é atingido e as reservas estão na casa de 3 dias apenas. Ou seja, na iminência de colapsar e deixar o estado sem energia. A ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica já comunicou por ofício a concessionária local. E advinha o que foi feito? ABSOLUTAMENTE NADA.

Agora vem o mais inacreditável. Os motivos que fazem Roraima ter que esta dependência da queima de óleo diesel. O primeiro é que o estado é o único em todo o Brasil que não faz parte do Sistema Interligado Nacional, que permitiria fazer o deslocamento de energia por redes de transmissão para alimentar Roraima em caso de necessidade. Na prática é como o governo federal, este e todos os que vieram antes dissessem: Roraima, você e os seus cidadãos não fazem parte do Brasil. E pior, os outros estados da Amazônia legal brasileira sequer se importam com seu irmão mais próximo também. 

O segundo motivo vem da inteligentíssima (contém ironia) política exterior do governo Jair Bolsonaro. Roraima importava energia elétrica do país vizinho, a famosa Venezuela. Até 80% do consumo dos roraimenses vinha da geração das hidrelétricas venezuelanas. É sabido localmente que a distribuição já era precária (mas acontecia), sobretudo depois da piora econômica e social no país do ditador de paraquedas Nicolás Maduro. Mas acontecia. Com o rompimento da relação, Roraima teve que se virar sozinha. Literalmente, já que o governo federal parece ser incompetente para assumir a responsabilidade e tomar decisões.

Uma das possíveis saídas, seria a interligação com o Linhão do Tucuruí, abastecida pela hidrelétrica do Tucuruí. Mas advinhem. A covardia em assumir riscos e novamente, responsabilidades, faz com que o presidente Bolsonaro e sua equipe se eximam do tema. A verdade é uma só e tem de ser dita. O Brasil não pode aceitar uma nova crise como a do Amapá. E os roraimenses devem se levantar e falar bem alto para que sejam ouvidos. Fazer parte de claque, de circo, de um show grotesco não vai resolver os problemas locais de geração de emprego, trabalho e renda. O presidente Bolsonaro teve uma de suas maiores vitórias, senão a maior (proporcionalmente), em alguns estados do Norte do país, como Roraima. Abandonar seus cidadãos deveria ser visto pelo povo como um crime absolutamente reprovável. 

Roraima, Amapá, Pará, Rondônia, Manaus, Acre e Tocantins deveriam ser respeitados. Só que de verdade. Chega de discursos e organismos ultrapassados como SUDAM e SUFRAMA. Chega de não fazer nada ou destruir bons projetos como o que estava pronto do CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia), abandonados neste governo. Tá na hora de alguém trabalhar de verdade.

Mas antes, os políticos locais (prefeitos, governadores, deputados estaduais, federais e senadores) e a população devem se respeitar e se levantar em defesa do seu próprio desenvolvimento. Caso contrário, serão esquecidos por mais 40 anos. É isso que os Amazônidas querem? Triste o Brasil que aplaude e ri enquanto nossos irmãos mais distantes morrem e ficam sem oportunidades de desenvolver seu melhor potencial. Não somos um país. Somos um aglomerado de idiotas, cegos e egocêntricos com mandato.

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