O Conservador Tecnológico O avanço digital que engolirá o Estado analógico brasileiro

O avanço digital que engolirá o Estado analógico brasileiro

Se toda crise traz uma ou mais oportunidades, a da COVID 19 veio com uma revolução. E a grande novidade é que ela atinge em cheio o meio político. E sim, isso é positivo.

Nem o atraso de pensamento fará o digital regredir

Nem o atraso de pensamento fará o digital regredir

Reprodução

Se olharmos atentamente para a entrada das tecnologias digitais em nossas vidas nos últimos anos, sobretudo a partir dos anos 2000, perceberemos que duas áreas foram de fato bastante preservadas: a religião e a política. Sobre digital e religião falarei no proximo texto. Hoje, escolhi falar sobre o digital na política brasileira.

O pensamento do Estado sempre foi analógico. Ainda que devamos desobrigar os portugueses de culpa pelo nosso estado atual (afinal, já faz bastante tempo que temos a República e Portugal atualmente tem avançado muito), é certo que enraizamos uma parte ruim da cultura cartorária daquela época, que o digam empreendedores incríveis como o Barão do Rio Branco. Para tudo se precisa de um carimbo, de uma autorização, de uma pessoa. Esta lógica fez com que o funcionalismo público brasileiro (obviamente com exceções) tivesse super poderes. O principal deles veio por meio da tal do monopólio da burocracia e da chamada estabilidade. A burocracia, sempre foi necessária para uma melhor organização das coisas. Mas aqui me refiro àquela "burrocracia", que emperra, atrasa, pouco produz. Nos dias de hoje, a estabilidade, comprovadamente faz com que as pessoas percam a motivação para evoluir, melhorar, aprender e entregar resultados. Como sua função está garantida por Lei, predomina o pensamento de "vou fazer o meu serviço e boa...". Claro que defendo estabilidade para algumas funções de Estado, como médicos, professores e forças de segurança, mas outras tantas poderiam perder este estatus imediatamente. Ainda assim, é bom sempre requalificá-los. Sempre. Mas defender estabilidade para o batedor de carimbo chega a ser uma heresia.

Nos últimos anos, governos tem evoluído em implementar, ainda que de forma tímida, tecnologias que permitam ao cidadão ter mais rapidez na sua busca. O governo federal do presidente Bolsonaro tem caminhado nesta direção. A carteira de motorista já era digital. Os cartórios, por conta própria inclusive, estão autenticando digitalmente documentos também. No judiciário, certidões podem ser salvas em PDF. No Estado de São Paulo, um dos pioneiros, o Poupa Tempo virou referência em ser uma praça de serviços digital, assim como os Detrans em todo o Brasil. Atualmente o governo do Rio Grande Sul é ótimo exemplo quando o assunto é prestação de serviços públicos digitais. Ora, se existe este avanço, porque demoramos tanto para avançar em teletrabalho, educação à distância (EAD) e telemedicina por exemplo? Simples. Falta de visão, comodismo e nada de senso de urgência. Você sabia que em 1962, um episódio do desenho "Os Jetsons", aquela família super avançada, que já nos apresentava facilidades tecnológicas, inaugurava a telemedicina? Sim, basta procurar que você achará o desenho. Década de 60 !

A pandemia do COVID 19 trouxe, mais uma vez, o senso de urgência que faltava. O meio privado ficou ainda mais rápido. E o público está tendo que correr atrás do digital. Apenas em economia de benefícios e gastos em viagens e diárias com os funcionários em Home Office, Câmara, Executivo e Legislativo superarão 1 bilhão de reais em economia até o final do ano. E se fizermos nosso papel de cidadão fiscalista, este será só o começo. Garanto a vocês que em breve estaremos discutindo o voto virtual. Há razões de sobra, em argumentação e tecnologia, para defender que o voto, respeitados os protocolos de segurança da informação, possa ser praticado por você, do seu celular, no dia da eleição, apenas com o reconhecimento facial. Claro que será um período de transição, assim como foi da cédula de papel para a urna eletrônica. Auditorias poderão, muito em breve, garantir a completa segurança do sistema. Imagine o quanto não seriam economizados em logística de transporte e segurança das urnas? Também já seria possível, hoje, a implementação da tecnologia de Blockchain (em linhas gerais, um sistema descentralizado de acreditação e autorizações) para a Receita Federal e autorizações ambientais. Sim, ao pé da letra, isso significaria o fim dos fiscais na ponta e uma melhoria do processo de transparência. 

E o que dizer da moeda digital? Com todos fazendo transações digitais em alguns anos, a sonegação chegaria ao seu patamar mínimo. Para isso, obviamente uma abertura do setor bancário é desejável, assim como a permissão para que mais fintechs possam atuar neste mercado ultra regulado. Aliás, o papel das fintechs é muito importante. Com elas no jogo ou os bancos melhoram muito ou perderão seus clientes. As tecnológias permitem, hoje, por exemplo, zerar papel no SUS, o que faria o sistema ser muito mais seguro para o médico, para o Estado e acima de tudo para o usuário. Governos mais participativos seriam uma tendência e o próprio sistema de representatividade teria que ser repensado, o que é bom. Imaginem Tribunais de Contas (órgãos fiscalizadores do uso do dinheiro público) utilizando metodologias ágeis para analisar os projetos. Neste cenário, onde a tecnologia, que já permeia a vida "física" do agente público, também invadiria sua vida "pública", o Brasil daria um salto em qualidade para o atendimento do cidadão. 

As crises são as mães das oportunidades. Se tivéssemos feito nosso trabalho da forma correta no passado, sem nos acomodarmos, hoje poderíamos ser exemplo ao mundo moderno e civilizado. Infelizmente nos orgulhamos apenas em ser criativos. E por quê digo isso? Infelizmente? Simples, e aqui fica uma lição. Criatividade sem planejamento, geração de valor e execução não valem absolutamente nada. O privado já sabe disso. Chegou o momento do setor público entender também. 

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